“I have measured my life in coffee spoons”

For I have known them all already, know them all:
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
               So how should I presume?*

(The Love Song of J. Alfred Prufrock)

Amei três pessoas em minha vida. De verdade mesmo, no maior estilo “amor eterno, amor verdadeiro”. E ainda amo essas três pessoas.

Uma delas foi minha namorada, por brevíssimos meses, durante horas conturbadas e dias passados entre poemas, vodca barata e ganache de chocolate. Ela me apresentou T.S. Eliot, que eu não conhecia, e leu comigo o poema da citação. E ele passou a ser meu segundo poema preferido da vida.

E tem esse verso dentro desse poema inteiro que resume toda a minha vida:

“I have measured my life in coffee spoons”

Quer coisa mais cotidiana do que uma colher de café? Se você toma café, como eu tomo, está acostumado as quantas colheres de café coloca no seu. Sabe de cor a receita infalível e nunca, nunca muda, pois veja só, é in-fa-lí-vel.

Pois daí que uma pessoa tem medido sua vida em colheres de café. Que são sempre a mesma medida. Que é sempre a mesma coisa. Uma pessoa assim nunca, nunca pensa no imprevisível, reluta com a mudança e, embora saiba que há outras grandezas, desconfie que sua vida poderia ser muito maior do que é, ainda assim prefere, de bom grado, vivê-la um bocadinho só. E que caiba na colher de café de todos os dias.

Tenho medido minha vida com colheres de café. Procuro conhecê-la por todos os vieses. A minha única luta é contra a mudança. A ansiedade, o pânico e a depressão são os outros ingredientes do meu café.

Diante do desconhecido, como eu me atreveria?

* Por já ter conhecido todas elas, conhecido todas:/Conhecido as noites, manhãs e tardes/Tenho medido minha vida com colheres de café/Conheço as vozes moribundas como o outono que se vai/Em meio a música de um quarto distante/Então, como me atreveria? – Tradução própria

 

 

 

 

 

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“Are we in another planet? “

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Raramente falo que uma adaptação cinematográfica é tão boa quanto o livro que lhe deu origem, mas abro uma exceção para falar de O Quarto de Jack (Room, 2015, direção de Lenny Abrahanson).

O livro foi um dos melhores que li em 2014, pesado,  muito bem escrito e conta a história de um menino que vive com sua mãe em um quarto. Ela, refém de um sequestrador e estuprador; ele, fruto desses dois crimes. A narrativa segue o olhar do menino e sua compreensão do mundo reduzido em que vive, mas que por ser o único que ele conhece, acaba sendo seu “planeta” e o que ele vê do lado de fora é o espaço sideral – uma boa metáfora para o desconhecido.

O filme deu conta de transportar esse olhar para a tela com uma delicadeza ímpar, utilizando-se de imagens, cores, diálogos sucintos e muito certeiros, fotografia e cenografia muito bem pensadas e integradas. Apesar de ser um soco no estômago pela temática que aborda, o filme consegue desenvolvê-la de modo a dosar a realidade cruel com o olhar do menino e sua inserção no mundo para além das paredes do quarto.

Três  cenas são dignas de nota: quando a mãe explica para o menino que há um mundo fora do quarto. Ele reluta a aceitar a ideia, batendo na tecla de que o mundo “verdadeiro” é a mágica que acontece na TV, que é uma de suas duas únicas janelas para o mundo exterior (a outra é a claraboia).

A parte em que a mãe passa por uma desistência também me emocionou, seja pela sonoridade (reparem, há o barulho da porta do quarto, o menino dormindo, ele acorda, sai à procura da mãe – lembra a outra cena em que ele sai do guarda-roupas, na primeira metade da narrativa); seja pela atuação de Jacob Tremblay.

E os dois diálogos finais entre mãe e filho. Tudo se resume à escolha de dois artigos.

Não é um filme fácil. Algumas pessoas podem achá-lo lento, mas há de se levar em conta que ele é narrado pela ótica de uma criança de cinco anos, que está apreendendo o mundo e a realidade que o rodeia. Lida com a dor e o processo de luto (que aqui é decorrente da morte de uma vida em potencial, que deixou de ser vivida quando a jovem foi sequestrada), com a reinserção e o deslocamento. É um filme em que reina figuras de linguagem, metáforas visuais, a ação é muito mais psicológica do que física. Ao meu ver, é um filme que se constrói de dentro para fora e demanda certa elaboração.

(Como eu disse no FB, por mim podem cancelar o Oscar do Leo e darem para o menininho, que arrasa.)