“And so I try to be kind to everything I see”*

‘Cause it seems things today
There ain’t no magic in ‘em
They don’t cut the grade
Like they used to. – Depression Blues, Neil Young

Ainda sobre Uma vida pequena, demorei para entender que o livro foi um imenso trigger warning para mim. Terminei a leitura e fiquei mal, os pensamentos obsessivos voltaram e me fechei, que é o que sempre faço quando tenho uma crise.

Acho que não é mais segredo que tenho uma coleção de transtornos mentais para controlar. Levou um bom tempo para que eu reconhecesse isso e buscasse ajuda. Sentia que era vergonhoso ser fracassada mentalmente. Precisei e ainda preciso de ajuda para lidar com minha cabeça.

Há dois meses, em um episódio de burrice extrema, parei com meus medicamentos. Como fiz algumas mudanças em minha vida, achei que conseguiria lidar com meus pensamentos, que estava curada. Bem, posso resumir o resultado dessa rebeldia em uma frase: deu merda.

E precisou da história de Jude St. Francis para eu perceber o poço em que me afundava. As coisas, de forma gradual a princípio, foram perdendo seus contornos, cores e motivos. Nada me alegrava, nada era importante o bastante. Eu não sentia amor. Estava apática para comigo e com os outros. Não comia, não dormia. Estava no automático cada vez mais.

E não me dei conta disso até ler o livro.

Os remédios me ajudam a me dar conta, a perceber melhor os surtos e separar os pensamentos obsessivos dos outros. Consigo ver, com a ajuda deles, meus próprios contornos, tanto físicos, quanto mentais. Consigo perceber e valorizar as outras pessoas. Deixo de ser apenas a minha mente, a parte mais obscura e perturbada dela, e meu ego destrutivo.

E eu tento. Esse tem sido o ano de fazer coisas novas que podem me proporcionar alegria e prazer. Saí para pular carnaval, cantei no karaokê (muito mal) rodeada de desconhecidos. Estou fazendo exercícios físicos, tocando um projeto, escrevendo. Evito as preocupações que não fazem parte do agora, do hoje. Evito olhar o abismo para ele não retribuir o olhar.

Procuro olhar a tudo e a mim principalmente com mais gentileza.

*Citação de Uma vida pequena

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Jude St. Francis

“What he knew, he knew from books, and books lied, they made things prettier.” A little life,  Hanya Yanagihara.

Desde o ano passado, quando li a tetralogia de Elena Ferrante, criei uma nova categoria de livros: os Ferranti. E Uma Vida Pequena entra nessa classificação. É o meu Ferrante de 2017.  Um livro que precisei ler aos poucos, o que é raro para mim, mas se não fosse assim, corria o risco de ter uma síncope.

Comecei minha análise pessoal pelo nome da protagonista principal, Jude St. Francis, o Judas, nome que ganhou na infância e, que dentre outras inúmeras coisas, serviu-lhe como indício do que ele realmente era. Em contrapartida, há o sobrenome, St. Francis, um indicativo do que seria seu futuro. Enquanto conhecemos Judas como aquele que traiu o Filho do Homem; alguém consumido pelo próprio remorso e arrependimento, há quem diga que Judas não fez mais do que cumprir sua parte em um trato pré-estabelecido, sendo o vetor do Cristianismo. Uma peça necessária dentro de um projeto arquitetado pelo mesmo Deus que engravidou uma virgem e precisava de seu filho morto para se afirmar como único.

Mas é o sobrenome que nos diz quem é o Jude de Uma Vida Pequena.

Dante Alighieri diz, no Canto XI, Paraíso, em A Divina Comédia:

[…] nacque al mondo un sole […]

(nasceu ao mundo um sol.)

O poeta faz referência ao nascimento de São Francisco de Assis. O santo que carregou mazelas físicas por toda a vida, depois de ter passado pela guerra (entre Assis e Peruggia, no século XIII). Depois de sua conversão, São Francisco passou a viver de esmolas, despiu-se de sua origem nobre, vivendo como um eremita.

Jude St. Francis absorveu toda simbologia de seu nome, enquanto seus amigos tentavam lhe mostrar que era em seu sobrenome que repousava sua verdadeira essência. Mais do que falar sobre relacionamentos e amizades, o livro trata do desenrolar de uma vida sujeita a percalços, aos horrores, ao inominável, onde também há momentos de beleza que salvam a humanidade que há em cada um.

A vida de Jude se polariza entre momentos de felicidade inacreditáveis (e o adjetivo aqui é devido à crença dele de que ser feliz não é uma coisa destinada a si) e o inferno onde ele passou a infância e parte da adolescência que lhe deixaram sequelas permanentes.

Uma vida pequena espremida entre o trauma e o se, pincelada por instantes fora da armadura necessária para viver apesar de.

“But what was happiness but an extravagance, an impossible state to maintain, partly because it was so difficult to articulate?”

Recomendo muito a leitura. A melhor que fiz até agora. E um dos melhores livros que li em minha vida. Tem um quê de Philip Roth e foi uma das melhores obras que a nova literatura americana produziu nos últimos tempos.

5/5

Self Image 2017

Tenho 36 anos. Sou a filha mais velha de quatro irmãos. Dos quatro, só eu e meu irmão caçula sobrevivemos até a idade adulta. Sempre que penso nisso, sinto a dor que minha mãe sentiu ao perder os outros dois.

Sou casada. Não no papel, nem na igreja. Se pudesse fazer alguma cerimônia, faria na Umbanda. Tenho um papel que atesta relacionamento estável devido ao convênio médico. No fim, acho que se legalizarmos a coisa, nosso castelo irá desmoronar.

Sou um tanto supersticiosa.

Licenciada em Letras, dei aulas até o nascimento da minha segunda filha. Cansei da sala de aula, de pessoas, da burocracia pedagógica, dos entraves criados pela solicitação de uma única caixa de giz. Cansei de pais e alunos. Fui feliz dando aulas até não ser mais e desistir.

Minhas duas meninas são o ponto alto da minha vida. Passados 11 anos do nascimento da primeira, posso dizer que o vazio seria muito mais insuportável se elas não estivessem por aqui. Brinco que elas são meus melhores 46 cromossomos.

Interesso-me por várias coisas. O que mais gosto de fazer na vida é ler. Escrevo menos do que já escrevi um dia, porque sou bastante autocritica. Parei de dar ouvido às pessoas e, devagar e sempre, corrijo o meu grande defeito de julgá-las. Sou piadista entre os meus, fechada para o mundo. Evito contato, essa que é a verdade.

Tenho pouquíssimos amigos. Demorei 20 anos para entender que vivo o presente. Continuo me interessando bastante pelo passado e tentando ler o futuro.

Porém, o meu tempo é o presente.

*

A ideia para esse post veio do canal do Eric Schneider, que faz seu Self Image desde 2010.

How light carries on endlessly, even after death*

 

saturndeathandfateEntão 2017 começou.

Mudei uma grande parte de mim, escolhi um caminho que não tem volta. Até agora estou feliz com ele, sem arrependimentos. Descobri que consigo ser mais resiliente do que imaginava. Não é questão de coragem, não acho que seja. Foi caso de necessidade.

O que tenho percebido é que estou mais calma com o passar dos anos. Ainda tenho crises gigantescas e pesadas de ansiedade, mas volto delas com menos hematomas.

Tenho lido menos do que deveria.

Assistido a menos coisas do que gostaria.

Escutado menos música do que já escutei um dia.

Escrevendo menos do que seria o certo.

Tirando escrever, a falta das outras coisas não tem me afetado tanto.

Tenho cozinhado, pensado, articulado, rido e planejado bastante.

Fiquei um mês na concha, agora abro-a devagarzinho e daqui a pouco saio por completo dela.

* Saturn – Sleeping at last

Stars, they come and go, they come fast or slow*

rodadoano

2017.

Ano 1.

Saturno.

Oxóssi. (Inclusive sua cor foi a escolhida como a de 2017 pela Pantone.)

O Julgamento. A Torre. A Lua.

Arquétipos.

Porque no fundo, somos sempre mais do mesmo.

Não fiz listinha de resoluções para esse ano. Algumas coisas bem concretas terão início na terceira semana de janeiro. Ideias que afloraram no – já-foi-tarde –  ano passadoPreciso me organizar para colocá-las em movimento. Ano 1, né?

Saturno, meu adorado, dita-me a regra de respeitar o tempo e não abusar dele em 2017. Responsabilidade.

Com a força e o bom-senso de Oxóssi.

A ressurreição, no Julgamento, é uma ideia muito auspiciosa. Hora de deixar para trás o que não dá mais para manter. O que me faz pior e não melhor.

Porque caso mantiver o que não é para ficar, o raio acertará a Torre e o prejuízo será maior.

No fundo, lá no fundo mesmo, o recado da Lua faz sentido. Tudo é ciclo, mas há os vitais e eles devem ser priorizados agora. A inteligência vem de dentro.

2017. Ano 1.

Ego sum.

(Mas não sou uma ilha.)

Bom ano bom para todos nós.

*Stars, they come and go, they come fast or slow
They go like the last light of the sun, all in a blaze
And all you see is glory
Hey but it gets lonely there when there’s no one here to share – Stars, Nina Simone

 

 

Is the end of the world as we know it*

and I not fell fine.

Um desmonte.

Desmontam as noções de civilidade.

Não fazemos nada.

Desmontam as noções de respeito, compaixão e empatia.

Não fazemos nada.

Desmontam os degraus de acesso às castas superiores.

Não fazemos nada.

Desmontam os direitos mínimos assegurados.

Não fazemos nada.

Desmontam um governo.

Não fazemos nada.

Desmontam um futuro.

Não faremos nada.

Desmontam uma cidade inteira.

Não fazemos nada.

Para mim, a palavra que resume 2016 é esfacelamento. Instituições, pessoas, cidades, modos e histórias de vida, países se esfacelaram, encontram-se em ruínas. Mês a mês, tudo foi se desfazendo, deixando a sensação de que estamos à deriva no todo e em nós mesmos. Eu não sei o que será. Não tenho a mínima ideia.

Mas talvez seja hora de começar a fazer alguma coisa.

(Uma ressalva para os estudantes que ocuparam suas escolas, que ousaram questionar, lançar questões pertinentes.)

*R.E.M.

 

Abyssus abyssum invocat*

knownothingaboutlife

2016 foi um ano que começou em 2013 para mim. De lá para cá, diversos eventos desagradáveis, ruins, péssimos aconteceram e me afetaram direta ou indiretamente.

Não falo apenas sobre política, que é a esfera coletiva e onde coisas terríveis estão acontecendo e afetam a todos. Não há muita saída deste abismo para o qual nos dirigimos cada vez mais rápido e do qual a queda não será livre. Muitas coisas ficarão pelo caminho, presas nas escarpas e reentrâncias do cenário onde nos encontramos.

Aqui refiro-me aos acontecimentos no âmbito pessoal nos quais, para o desespero de alguém que adora estar no controle, não pude intervir, remediar, prever. As aleatoriedades que me apanharam e me puxaram pelos pulsos com o resto do corpo se debatendo na via pedregosa.

Sei que é muito cedo para uma retrospectiva e é otimismo de minha parte pensar que o ano da graça de 2016 ainda não tem bala na agulha para me (nos) surpreender até dia 31/12; e, de um ponto de vista coletivo, todos sabemos (menos os tapados) o quanto o ano foi péssimo. Contudo, olhando a minha vida ordinária, sinto apenas o bafejar da morte, que vem dando pinta desde 2013.

Posso dizer, e entendo alguém me achar tola por isso, que 2016 foi o ano em que me tornei adulta e cortei os laços que ainda me prendiam à pessoa que um dia fui. As minhas primeiras rugas nasceram, meus cabelos brancos ficaram abundantes. Perdi o otimismo, perdi a capacidade de me encantar, perdi uma ideologia política, perdi as referências que me norteavam o caminho.

Olhando no espelho, tento encontrar um ponto para continuar. Vou continuar daqui. É tudo que eu queria dizer. Ainda não encontrei.

Tenho medo de pensar no futuro, tenho medo de fazer planos. Pela primeira vez, desde os 18 anos, não sei como será minha vida nos próximos 29 dias. D. me disse que talvez essa não seja a hora de fazermos planos. Não dá para planejar muita coisa quando você tem a sensação de estar pisando em areia movediça.

“Por que você acha que tudo que conhece, tudo que aprendeu, só confirma aquilo que você já sabia? Pois, no meu caso, aquilo que me foi ensinado e em que eu acreditava é, aos poucos, corroído, um fragmento, depois um pedaço, depois outro pedaço. A cada mês, fazem desmoronar os alicerces das certezas deste mundo; e do próximo mundo também.” – Wolf Hall, Hilary Mantel.

*Um abismo atrai o outro.