13 reasons why

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Daí que saiu a série do livro na Netflix e eu, aproveitando que estava sozinha, fiz maratona da sexta para o sábado.

Eu sei o que me leva a gostar das coisas a que assisto, que leio, que ouço. E sei também porque achei a série melhor do que o livro (e olha que eu gostei bastante dele). E, com certeza, sei porque assisti a um episódio depois do outro e chorei de soluçar no final.

Ezra Pound disse, certa vez, que a literatura é a linguagem carregada de significado. Ele também desenvolveu um movimento artístico chamado de Imagismo, defendendo a ideia de que a imagem é o que apresenta um complexo emocional e intelectual em um instante de tempo.

Ele falava sobre poesia.

A minha opinião é que isso se aplica também em outras formas de arte. O que me leva a gostar de verdade de alguma coisa, seja livro, filme, série, música é o significado que tem para mim e as imagens que completam o que chamo de lacunas do meu próprio entendimento.

E 13 reasons why cumpre esse papel.

O tema, de difícil digestão, é bullying dentro do ambiente escolar.

Há um livro de Erving Goffman, Manicômios, Prisões e Conventos, em que o autor disserta muito bem sobre a escola como uma instituição total. A escola, segundo o autor, está no 4º grupo de instituições totais, aquelas “que são estabelecidas com a intenção de realizar de modo mais adequado uma tarefa de trabalho”. Outro ponto interessante é que, em uma instituição total, há uma ruptura nas barreiras que separam as três esferas da vida e tudo passa a ser realizado em um único lugar, sob uma única autoridade. Há o grupo que controla e os controlados. E há regras implícitas que são as mais importantes a serem respeitadas.

Dizem que a escola é o espelho da sociedade, assim quanto mais violento e preconceituoso for o meio social, isso se refletirá no micro-cosmos escolar. E, convenhamos, não há mais formação social dentro da escola. Há regras, há modelo pedagógico, há feiras, há o diabo que for, mas não há formação social.

E o aluno é aquilo que ele vivencia (sempre há uma ou duas exceções).

E o que tudo isso tem a ver com 13 reasons why?

Tem a ver com esta notícia aqui: Jovem se mata depois de sofrer estupro e bullying.

Hannah, a personagem central, também se mata, depois de passar por um longo processo de bullying e um estupro. Tudo começa com uma foto tirada em que aparece sua calcinha, no momento em que ela descia por um escorregador. Quem tirou a foto foi o garoto pelo qual ela estava apaixonada no momento e em quem deu seu primeiro beijo.

A foto se espalhou pelo colégio como fogo em um rastro de gasolina. A direção não tomou qualquer medida punitiva. Hannah virou a vadia, a fácil.  E esses adjetivos a marcaram como ferro em brasa marca o gado.

Quando você é uma garota com esse tipo de marca acaba virando um alvo. E ninguém dentro do seu ambiente escolar, dentro do micro-cosmos onde você passa a maior parte do seu tempo, vai acreditar no contrário. Por ser vadia e fácil, você se transforma em um receptáculo, onde despejam, além de xingamentos, todo tipo de fluídos corporais, aceitando você ou não.

E foi assim que Hannah se viu violada diversas vezes, até culminar em uma cena de estupro tão forte, que fiquei com o estômago embrulhado o resto do fim de semana.

Não adianta pensarmos que é apenas ficção adolescente. É o que acontece no mundo real. A cada dia, aumenta o número de relatos de meninas que foram agredidas verbal e fisicamente dentro da escola.

13 reasons

As pessoas se importam? Sim, mas não o bastante.

As pessoas têm ideia do que realmente acontece dentro da escola? Mais ou menos.

Estamos seguros? Não sei. A sociedade está?

Então, é por isso que gostei de 13 reasons why, muito mais da série do que do livro. Ambos, carregados de significado para mim, que já tive minha cota de eventos que nunca serão esquecidos, e as imagens entregaram toda a complexidade de um sistema bichado em sua raiz.

Ah, e a trilha sonora é muito boa.

She screams in silence*

anonymouswomen

Ainda sobre Gilmore Girls e as lembranças que o Revival me despertaram.

Gravidez na adolescência. Consigo me lembrar de dois acontecimentos, claro que dever ter havido outros, mas esses dois me marcaram pela proximidade e pela brutalidade marcante de ambos.

Aos 9 anos, eu morava em São Paulo e, na casa do lado da minha, morava uma família predominantemente de mulheres. O pai aparecia muito de vez em quando e o melhor adjetivo que posso encontrar para ele é sombrio. Vestia a fantasia de homem honesto e correto, mas nas poucas vezes em que surgia, trazia consigo gritos e choros que ecoavam por toda vizinhança.

A filha mais velha ficou grávida aos 16. Lembro-me bem dela, uma garota vivaz, alegre, de sorriso amplo. Ela engravidou e continuou morando na casa da mãe; a gravidez era comentada em sussurros. Quando o pai soube, houve uma surra medonha. Ele a trancou no banheiro e bateu nela, muito, demais, com um fio.

Da laje da minha casa dava para ver o banheiro onde ele a trancou. Os gritos, a situação, a família toda ali, todo mundo sabendo o que estava acontecendo.

Ele surrou a filha grávida.

E ninguém fez nada.

Depois, ela teve o bebê, uma menina. A família inteira adorava a criança. Inclusive o pai que surrou a mãe da neta durante a gravidez.

Aos 12, morando em outra cidade e com dificuldades de adaptação, juntei-me a duas outras meninas que, com o passar do tempo, passei a chamar de amigas. A R. era mais próxima, viamo-nos sempre, íamos juntas para a escola. A C. era mais distante. De família extremamente repressora, evangélica, era proibida de sair conosco, então só nos encontrávamos em sala de aula.

Dois anos depois, em uma visita (eu tinha voltado a morar em São Paulo, capital, no começo de 1994), perguntei a R. sobre a C., e fiquei sabendo que ela havia morrido um ano antes. Fiquei chocada. Acho que foi a primeira morte de alguém jovem como eu e próximo de que tomei conhecimento. O mais chocante foi a causa: C. tinha morrido em decorrência de um aborto clandestino.

Ela engravidou em uma das raras saídas em que conseguiu escapar da vigilância da família. Quando descobriu a gravidez, desesperada, procurou uma “aborteira” na cidade vizinha. Foi encontrada empapada em sangue, em seu quarto, três horas depois.

Ninguém fez nada para ajudá-la.

Essas foram minhas experiências indiretas com o tema gravidez na adolescência.

Vendo o Revival de Gilmore Girls, dei-me conta de uma coisa que sempre me incomodou, mas que eu ainda não sabia o que era. Aí descobri. A gravidez de Lorelai, as tintas que usaram para colori-la, de como abordaram o assunto. Eu sei, é ficção, mas sinceramente, não houve perrengue algum em decorrência dessa gravidez adolescente. Então me incomoda o fato de usarem um problema sério de modo tão leviano, porque o que eu conheci na realidade, está muito distante do que vi na ficção.

Enfim, era só isso mesmo.

*She, Green Day.

30-Something Gang*

(Ou como um clube define bem toda uma população.)

AVISO: POST SOBRE O REVIVAL DE GILMORE GIRLS. SPOILERS À VISTA. LEITURA POR SUA CONTA E RISCO.

Caso não se incomode, hold’on little one, we gonna have thrills (unfortunately, the cheap ones).

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Minha melhor amiga e madrinha das minhas filhas e eu nos conhecemos na faculdade. E nossa amizade começou com um paper chat sobre séries.  Falávamos de Dawson’s Creek (Pacey Forever) e foi ela que me apresentou as Garotas Gilmore.

Quando assisti à série pela primeira vez, encantei-me com Rory, enfiei-me de cabeça no desafio Rory Gilmore de leitura e queria ser aquela garota prodígio que conseguia tirar A em tudo, fazer todos os trabalhos, ler todos os livros, ter a pele imaculada e os namorados mais gatos. Achava Lorelai bacana, embora não tenha entendido o drama em sua vida: vinda de uma família rica, acolhida por uma cidade saída de um conto de fadas, bem-nutrida, com todas as referências pop possíveis, com tempo para dirigir uma pousada, costurar para todos os eventos da cidadezinha, shows, baladas, namorados e ainda ser magra, comendo só junk food. Ah, gravidez aos 16 anos. Drama? Não no caso dela.

Minha mãe é uma megera, meu pai é ausente, sou orgulhosa o bastante para renegar minhas raízes e vir a ser a self-made woman in my american dream

Ok, então.

Na série, o mundo real se concentra no dinheiro. É através de sua abundância ou de sua falta que as tramas se desenrolam. O maior banco é Richard & Emily Gilmore. E como uma instituição financeira, exigem condições para empréstimos e assinatura em notas promissórias. Foi assim com as mensalidades de Chilton, seria assim com Yale, caso Christopher, o pai problemático, ausente (com uma pequena alienação parental ali escondidinha) não deixasse de ser o rebelde da motocicleta e se tornasse um profissional endinheirado. O dinheiro dos Gilmore garantiu a tão sonhada pousada de Lorelai.

Minha mãe é uma megera, meu pai é um ausente.

Mas eles têm dinheiro.

Corta para o ano de 2016.

Quando saiu a notícia de que haveria um revival bancado pela Netflix, todo mundo se ouriçou. Ó como será agora? Rory tinha saído de casa para acompanhar as primárias do Obama e como ela volta quando uma mulher lança sua candidatura à presidência americana? A mesma mulher que foi citada algumas vezes na série (e que não foi mencionada no revival)? Lorelai resolveu sua tensão sexual com Luke Danes, sócio antiquíssimo da friendzone? Quem será que ficará com Rory, a garota prodígio? Dean, o primeiro amor? Jess, o primeiro cafajeste? Logan, o primeiro a tratá-la razoavelmente bem? (Eu tinha uma queda pelo Logan, admito.)

Primeiro de tudo, Edward Herrmann, que fazia Richard Gilmore, faleceu em 2014. E fez falta no retorno. A morte de sua personagem foi o agente catalisador de algumas mudanças, sobretudo em Emily. Quando revi a série, identifiquei-me muito mais com a mãe megera e o pai ausente e queria mandar Lorelai fazer análise. Ao meu ver, tanto Richard, quanto Emily agiram de acordo com suas crenças e meio. A filha de 16 anos engravidou. O namorado, de boa família, aceitou se casar e assumir a criança. Até a gravidez, os jovens pareciam um casal apaixonado. Qual seria a saída mais lógica?

Na cabeça da Lorelai de 16 anos a saída foi fugir para um lugar desconhecido e apostar na sorte, levando um bebê por nascer consigo.

Tudo deu certo, pois estamos falando de ficção cor-de-rosa. Chick-lit sem dezenas de tons de qualquer cor que não rosada.

Mas, em Gilmore Girls 2.0, tivemos o prazer (pelo menos eu tive) de constatar que a vida, mesmo que ficcional, não suporta tons pastéis em demasia.

Rory, como qualquer pessoa de 32 anos, formada em jornalismo, em pleno ano da graça de 2016, está sem emprego e sem perspectivas. Foi recusada pela Condé Nast, um dos maiores grupos editoriais do mundo, o que significa que muitas portas lhe foram fechadas. Tentou, como penúltima alternativa (a última seria dar aulas em seu antigo colégio, mas quem quer ser professor hoje em dia? A menina prodígio não quer) se encaixar em um site/blog de opinião, com um nome duvidoso e conteúdo idem. Não soube vender seu peixe à sua contratante e nem sequer conseguiu xingá-la como uma pessoa adulta.

Encontramos Lorelai morando com Luke, mas não casada, o que ela insiste não ser um problema. Ela não consegue se lembrar uma única coisa positiva para falar sobre o pai em seu funeral. A mãe a coloca em uma terapia em conjunto (Emily tendo a voz da razão) e a vidinha tão estruturada da nossa heroína vai desmoronando pedaço por pedaço, a cada meia hora, em média.

Então, temos o seguinte quadro ilustrado pela imagem que abre o post. As garotas Gilmore e Luke Danes que nunca fez e nunca fará parte desse clã fora do esquadro, um elemento à parte, intrusivo. Ele está completamente deslocado, seja na fotografia, no figurino e com a mesma cara de constrangimento de sempre.

Rory revê seus três namorados. Logan aparece como um caso sem compromisso, mas bem mais do que isso, porque nada na vida dessas garotas é en passant. Está noivo de outra, mas isso não é um problema. A in omnia paratus ressurge com sua pompa, circunstância e dinheiro, muito dinheiro para resgatar a menina prodígio do marasmo de sua vida e mostrar o caminho da luz e da glória: vá escrever um livro. Não é o que todo mundo anda fazendo ultimamente?

Dean, o primeiro namorado, que se mostrou um belo de um machista quando revi, teve seus 30 segundos de tela e além de preencher a cota de americano padrão, casado e com uma penca de filho dá o seguinte conselho: vá escrever um livro, afinal você já leu todos.

E Jess, o primeiro cafajeste, ressurge para ser o novo Luke Danes da nova Lorelai Gilmore, uma mulher de 32 anos, sem perspectiva profissional, grávida (de Logan talvez?).

Como disse Lorelai em um brinde com Emily, quando foi lhe pedir dinheiro para uma expansão da pousada: Ao ciclo da vida, que se repete.

Lorelai se encontra no casamento. Casar-se com Luke, depois de quase 20 anos de embromação, é a solução para todos os seus dramas existenciais.

O ponto alto do revival para mim foi Emily e como a personagem evoluiu depois da morte de Richard. Ela se libertou. Diria que ficou completa. Deu a volta em si mesma e cimentou todos os buracos que uma existência é capaz de fazer. Aprendeu a conviver com pessoas diferentes, mandou às favas o mundo artificial em que vivia, da casa luxuosa e digna de um acumulador à Daughters of the American Revolution, com uma saída bem digna. Não foi à toa que seu final foi o mais inspirador e cheio de paz. Ela está completa consigo mesma.

 

Pontos sofríveis:

Por que inserir do nada e sem qualquer explicação um Mr. Kim? Desnecessário.

Ficou claro na tela que Melissa McCarthy não estava à vontade em cena. O rumo que deram para a personagem, para explicar a aparição de última hora, também foi ridículo. A Sookie que fundou a pousada junto com Lorelai e Michel não teria seguido este caminho. O reencontro das duas soou deslocado e sem o afeto que esbanjavam na série.

O casamento de Lorelai e Luke. Seriously? 

Pela conversa que Rory teve com o pai não deu para ter certeza se ela incluirá ou não Logan (se ele for o pai do bebê que ela espera) na criação do filho. Contudo, ficou clara uma certa mágoa da parte dela para com os pais, sobretudo por ele ter concordado com a atitude de Lorelai.

A terapia poderia ter sido melhor explorada, mas fizeram questão de desautorizarem a terapeuta, colocando-a como atriz substituta naquele musical horrendo sobre Stars Hollow (Sério, a cidade que muita gente ama não está em nada representada no que foi mostrado).

Detestei as piadas gordofóbicas.

Pontos Positivos:

Finalmente vi Lorelai caindo na real (não durou muito tempo, mas valeu mesmo assim).

Kirk, Taylor e Michel.

Paris sendo Paris.

O fechamento do ciclo da Emily.

 

Podem discordar à vontade. Muitas pessoas que conheço, inclusive minha melhor amiga, amam a série. Da minha parte, acho que nunca foi essa coisa toda e eu é que não percebi antes.

(Mas estou velha, rabugenta e cheia de problemas reais. Acho que perdi a capacidade de me encantar, tão necessária para encarar certas ficções.)

“Are we in another planet? “

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Raramente falo que uma adaptação cinematográfica é tão boa quanto o livro que lhe deu origem, mas abro uma exceção para falar de O Quarto de Jack (Room, 2015, direção de Lenny Abrahanson).

O livro foi um dos melhores que li em 2014, pesado,  muito bem escrito e conta a história de um menino que vive com sua mãe em um quarto. Ela, refém de um sequestrador e estuprador; ele, fruto desses dois crimes. A narrativa segue o olhar do menino e sua compreensão do mundo reduzido em que vive, mas que por ser o único que ele conhece, acaba sendo seu “planeta” e o que ele vê do lado de fora é o espaço sideral – uma boa metáfora para o desconhecido.

O filme deu conta de transportar esse olhar para a tela com uma delicadeza ímpar, utilizando-se de imagens, cores, diálogos sucintos e muito certeiros, fotografia e cenografia muito bem pensadas e integradas. Apesar de ser um soco no estômago pela temática que aborda, o filme consegue desenvolvê-la de modo a dosar a realidade cruel com o olhar do menino e sua inserção no mundo para além das paredes do quarto.

Três  cenas são dignas de nota: quando a mãe explica para o menino que há um mundo fora do quarto. Ele reluta a aceitar a ideia, batendo na tecla de que o mundo “verdadeiro” é a mágica que acontece na TV, que é uma de suas duas únicas janelas para o mundo exterior (a outra é a claraboia).

A parte em que a mãe passa por uma desistência também me emocionou, seja pela sonoridade (reparem, há o barulho da porta do quarto, o menino dormindo, ele acorda, sai à procura da mãe – lembra a outra cena em que ele sai do guarda-roupas, na primeira metade da narrativa); seja pela atuação de Jacob Tremblay.

E os dois diálogos finais entre mãe e filho. Tudo se resume à escolha de dois artigos.

Não é um filme fácil. Algumas pessoas podem achá-lo lento, mas há de se levar em conta que ele é narrado pela ótica de uma criança de cinco anos, que está apreendendo o mundo e a realidade que o rodeia. Lida com a dor e o processo de luto (que aqui é decorrente da morte de uma vida em potencial, que deixou de ser vivida quando a jovem foi sequestrada), com a reinserção e o deslocamento. É um filme em que reina figuras de linguagem, metáforas visuais, a ação é muito mais psicológica do que física. Ao meu ver, é um filme que se constrói de dentro para fora e demanda certa elaboração.

(Como eu disse no FB, por mim podem cancelar o Oscar do Leo e darem para o menininho, que arrasa.)