Is the end of the world as we know it*

and I not fell fine.

Um desmonte.

Desmontam as noções de civilidade.

Não fazemos nada.

Desmontam as noções de respeito, compaixão e empatia.

Não fazemos nada.

Desmontam os degraus de acesso às castas superiores.

Não fazemos nada.

Desmontam os direitos mínimos assegurados.

Não fazemos nada.

Desmontam um governo.

Não fazemos nada.

Desmontam um futuro.

Não faremos nada.

Desmontam uma cidade inteira.

Não fazemos nada.

Para mim, a palavra que resume 2016 é esfacelamento. Instituições, pessoas, cidades, modos e histórias de vida, países se esfacelaram, encontram-se em ruínas. Mês a mês, tudo foi se desfazendo, deixando a sensação de que estamos à deriva no todo e em nós mesmos. Eu não sei o que será. Não tenho a mínima ideia.

Mas talvez seja hora de começar a fazer alguma coisa.

(Uma ressalva para os estudantes que ocuparam suas escolas, que ousaram questionar, lançar questões pertinentes.)

*R.E.M.

 

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Abyssus abyssum invocat*

knownothingaboutlife

2016 foi um ano que começou em 2013 para mim. De lá para cá, diversos eventos desagradáveis, ruins, péssimos aconteceram e me afetaram direta ou indiretamente.

Não falo apenas sobre política, que é a esfera coletiva e onde coisas terríveis estão acontecendo e afetam a todos. Não há muita saída deste abismo para o qual nos dirigimos cada vez mais rápido e do qual a queda não será livre. Muitas coisas ficarão pelo caminho, presas nas escarpas e reentrâncias do cenário onde nos encontramos.

Aqui refiro-me aos acontecimentos no âmbito pessoal nos quais, para o desespero de alguém que adora estar no controle, não pude intervir, remediar, prever. As aleatoriedades que me apanharam e me puxaram pelos pulsos com o resto do corpo se debatendo na via pedregosa.

Sei que é muito cedo para uma retrospectiva e é otimismo de minha parte pensar que o ano da graça de 2016 ainda não tem bala na agulha para me (nos) surpreender até dia 31/12; e, de um ponto de vista coletivo, todos sabemos (menos os tapados) o quanto o ano foi péssimo. Contudo, olhando a minha vida ordinária, sinto apenas o bafejar da morte, que vem dando pinta desde 2013.

Posso dizer, e entendo alguém me achar tola por isso, que 2016 foi o ano em que me tornei adulta e cortei os laços que ainda me prendiam à pessoa que um dia fui. As minhas primeiras rugas nasceram, meus cabelos brancos ficaram abundantes. Perdi o otimismo, perdi a capacidade de me encantar, perdi uma ideologia política, perdi as referências que me norteavam o caminho.

Olhando no espelho, tento encontrar um ponto para continuar. Vou continuar daqui. É tudo que eu queria dizer. Ainda não encontrei.

Tenho medo de pensar no futuro, tenho medo de fazer planos. Pela primeira vez, desde os 18 anos, não sei como será minha vida nos próximos 29 dias. D. me disse que talvez essa não seja a hora de fazermos planos. Não dá para planejar muita coisa quando você tem a sensação de estar pisando em areia movediça.

“Por que você acha que tudo que conhece, tudo que aprendeu, só confirma aquilo que você já sabia? Pois, no meu caso, aquilo que me foi ensinado e em que eu acreditava é, aos poucos, corroído, um fragmento, depois um pedaço, depois outro pedaço. A cada mês, fazem desmoronar os alicerces das certezas deste mundo; e do próximo mundo também.” – Wolf Hall, Hilary Mantel.

*Um abismo atrai o outro.

I exist on the best terms I can*

“The trouble was, I had been inadequate all along, I simply hadn’t thought about it.” – SP, The Bell Jar.

Agora me veio essa música do Joy Division na cabeça e eu gosto muito da voz do Ian Curtis, uma das cinco melhores na minha opinião e tem essa marcação com a bateria, que não casa com a voz e chega a ser um incômodo, como se fosse uma marcha prestes a começar, mas que nunca sai do mesmo passo, não avança; enquanto a letra destrincha a existência possível.

Quando chega neste verso Existence well what does it matter? I exist on the best terms I can, a bateria toca uma nota a mais e retorna para o refrão, para o incômodo. E fica nisso, num turbilhão indigesto, que de quando em quando dá alguns rompantes de agonia ou felicidade e, que no fim, volta a marcar o compasso.

Mas que diabos quero eu dizer com tudo isso? Tenho feito algumas coisas que, em outros tempos, eu não faria. Falei ao telefone longamente 3 vezes nessa semana, sendo que em uma delas, conversei com uma pessoa com a qual não falava há 23 anos. Estou tentando sair do refrão incômodo, mas, ao mesmo tempo, estou impregnada de tristeza. Aquela do tipo amargo, que afoga por dentro e que me dá vontade de chorar, contudo eu não consigo derramar uma lágrima e tudo fica maior e maior e maior e acabo implodindo e fazendo coisas que sei que não devo fazer.

E aí, a voz do Ian Curtis me fala:

Heart and soul, one will burn.

Não dá para ter tudo. Não dá para ser feliz & alegre, quando sou consumida por ansiedade e tristeza. Não dá para viver um segundo de cada vez, quando dois eventos estão em meu horizonte e não posso apressá-los ou vivê-los ou saber como será minha vida depois deles. E, caraglio, sinto-me à beira da catatonia.

Look at those cavemen go*

Enquanto eram só as sombras na caverna, o mundo tinha um limite. A existência estava ali, entre as paredes, nas paredes.

Agora que sabemos que não estamos mais na caverna, não entendemos muito bem o nosso lugar. É tudo tão grande e infinito. Antes, as sombras se limitavam ao fundo da caverna. Hoje elas nos cercam por todos os lados.

Estamos soltos, por nossa própria conta e as ideias todas colidem e as boas se perdem. Perdemos sempre os bons.

E ficamos. E cada vez mais precisamos de alguém que nos aponte o caminho. Cada vez mais somos Dorothies e precisamos de estradas de tijolos amarelos, mas tudo se resume a I’ve a feeling we’re not in Kansas anymore.

lifeisfear

*Life on Mars, David Bowie.

For we have been through hell and high tide*

O Tempo passa e um dia ele resolve ficar. Acumula-se todo em seu rosto, pesando nos cantos, formando os mapas dos caminhos já trilhados e dos quais não se tem mais volta.

O Tempo cura e um dia ele resolve ferir. Caí sobre você, faz pedacinhos. Sua memória se fragmenta. Seu corpo perde toda a elasticidade, a força, a vontade e o que sobra é apenas a casca da ferida.

O Tempo é professor e um dia ele resolve punir. Dá a você horas a fio para pensar em todos os arrependimentos possíveis e imagináveis, que até aquele mesmo segundo sequer existiam.

O Tempo é infindável e um dia ele resolve terminar. O fim das horas de amor, da infância antes que ela termine, da vida, antes que ela se acabe.

O Tempo é generoso, mas o que dá, ele toma. Se vivemos tempo o bastante para ter lembranças, quase nunca temos memória. Se os dias se acabam em poucos anos, temos a memória, mas nem todas as lembranças do mundo serão o bastante para apaziguar a dor daqueles que o tempo deixou para trás.

— x— x—

Maio foi o mês em que a depressão se instalou de vez. Deu até saudades das épocas de mania.

Com ela, vieram o cansaço extremo, a falta de vontade, a insônia, o medo paranoico.

Na verdade, eu nem queria falar sobre isso. Era outra coisa que tinha em mente, mas deixa para lá. Estou com preguiça de elaborar textão e opinião sobre as coisas. Então prefiro apenas me omitir e ver o peixe morrer pela boca.

* What Difference Does It Make?, The Smiths.

 

 

 

By all of the petty things that I couldn’t do*

Idade adulta. 18 anos. Quando você só queria ter 15, decidir sobre a formatura e dizer para aquele cara que lhe desprezou o quanto ele era babaca. Contar para todo mundo que você ficou com a mina gostosa do colégio, não falou porque teve medo do que pensariam. (Ou a mina ficou com você, mas está tudo tão embaçado agora que você é adulta, quase velha, uma imagem em preto e branco na cabeça de uma criança). Quando você ainda tinha medo do que pensariam.

Adulta. Você agora tem medo do que pensa. Trai-se a cada instante. Ainda pensa em fugir, como quis quando passou pelo Grande Horror. Quase velha, você ainda se acha estranha demais, grande demais, inadequada demais. Antes era para o mundo e os outros. Na metade da vida, tem certeza de que é errada para si mesma.

Crescida, mas sem passar da altura que tinha aos 12 anos. A responsabilidade da vida adulta lhe atingiu como uma bola de canhão. E você agora vive com o buraco que ela lhe deixou. Grande, mas não inteira.

Jovem senhora. Nem se lembra mais do antes. Mentira, lembra sim, porque tudo ficou congelado. Os bailinhos, o primeiro porre, os cigarros. Nunca fumou maconha, nunca cheirou. Foi careta demais nesse sentido. Fugia e se escondia dentro da própria cabeça.

Velha. Sente-se velha. Lembra-se da primeira vez que se sentiu assim e desde então tem envelhecido muito todos os dias. A velhice não é leve. Não é estado de espírito. Não é aceitação. É fato. Do tipo que leva uma vida toda para acontecer.

*Electric Guests, This Head I Hold.

Hurry, hurry, hurry before I go insane

Tive um amigo que passou por terapia de eletrochoque. E foi isso que nos aproximou. Na verdade, nós nos conhecemos três anos antes, quando trabalhávamos no mesmo local, mas um era nada para o outro e vice-versa. Coexistíamos no mesmo espaço de trabalho por poucas horas e só.

Daí que nos reencontramos. E ele estava mudado. Tinha terminado mais uma graduação (ele fez três), tinha se separado da mulher, tinha passado pela terapia de eletrochoque e andava com um papelzinho na carteira com o nome de todos os remédios que ele já tomara para seu transtorno. A terapia de eletrochoque foi o último recurso.

Coincidentemente, a vida nos reaproximou em um período em que a minha existência estava uma porcaria. Eu não tinha com quem conversar sobre meus assuntos, nem com quem falar sobre a volta dos sintomas da minha depressão. Falar sobre a apatia que eu sentia em relação a tudo e a todos. Entre um intervalo e outro, em outro espaço de trabalho no qual passamos a coexistir, brinquei que gostaria de apagar minha memória. Ele me repreendeu de forma veemente. E disse que eu não sabia do que estava falando.

Os choques tinham liquefeito as memórias dele. A teoria era que não lembrar o faria sofrer menos. Bem, não fez.

Tem algum jeito de lembrar de coisas doloridas sem que sintamos de novo a dor, como se fosse a primeira vez? Tem como contornar o que passou e dizer: pelo menos fiquei mais forte, mais sábio, mais experiente? Dá mesmo para acreditar que o fato de ter sentido a dor lhe fez uma pessoa melhor?

Conversávamos sobre isso. Um dia, o mais perto que chegamos de alguma conclusão foi: os fatos da vida que cada um de nós levou até aquele determinado momento nos fez diferentes. Não melhores.

Não dá para viver no país das conjecturas. Como não dá para viver sem se lembrar do passado, como dizia meu amigo. Ele não se lembrava e isso era sua angústia. A depressão em si deixou de ser seu principal problema. Era o não lembrar que o esvaziava diariamente.

E assim, ele parou de sentir.

crap_yang