Is the end of the world as we know it*

and I not fell fine.

Um desmonte.

Desmontam as noções de civilidade.

Não fazemos nada.

Desmontam as noções de respeito, compaixão e empatia.

Não fazemos nada.

Desmontam os degraus de acesso às castas superiores.

Não fazemos nada.

Desmontam os direitos mínimos assegurados.

Não fazemos nada.

Desmontam um governo.

Não fazemos nada.

Desmontam um futuro.

Não faremos nada.

Desmontam uma cidade inteira.

Não fazemos nada.

Para mim, a palavra que resume 2016 é esfacelamento. Instituições, pessoas, cidades, modos e histórias de vida, países se esfacelaram, encontram-se em ruínas. Mês a mês, tudo foi se desfazendo, deixando a sensação de que estamos à deriva no todo e em nós mesmos. Eu não sei o que será. Não tenho a mínima ideia.

Mas talvez seja hora de começar a fazer alguma coisa.

(Uma ressalva para os estudantes que ocuparam suas escolas, que ousaram questionar, lançar questões pertinentes.)

*R.E.M.

 

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She screams in silence*

anonymouswomen

Ainda sobre Gilmore Girls e as lembranças que o Revival me despertaram.

Gravidez na adolescência. Consigo me lembrar de dois acontecimentos, claro que dever ter havido outros, mas esses dois me marcaram pela proximidade e pela brutalidade marcante de ambos.

Aos 9 anos, eu morava em São Paulo e, na casa do lado da minha, morava uma família predominantemente de mulheres. O pai aparecia muito de vez em quando e o melhor adjetivo que posso encontrar para ele é sombrio. Vestia a fantasia de homem honesto e correto, mas nas poucas vezes em que surgia, trazia consigo gritos e choros que ecoavam por toda vizinhança.

A filha mais velha ficou grávida aos 16. Lembro-me bem dela, uma garota vivaz, alegre, de sorriso amplo. Ela engravidou e continuou morando na casa da mãe; a gravidez era comentada em sussurros. Quando o pai soube, houve uma surra medonha. Ele a trancou no banheiro e bateu nela, muito, demais, com um fio.

Da laje da minha casa dava para ver o banheiro onde ele a trancou. Os gritos, a situação, a família toda ali, todo mundo sabendo o que estava acontecendo.

Ele surrou a filha grávida.

E ninguém fez nada.

Depois, ela teve o bebê, uma menina. A família inteira adorava a criança. Inclusive o pai que surrou a mãe da neta durante a gravidez.

Aos 12, morando em outra cidade e com dificuldades de adaptação, juntei-me a duas outras meninas que, com o passar do tempo, passei a chamar de amigas. A R. era mais próxima, viamo-nos sempre, íamos juntas para a escola. A C. era mais distante. De família extremamente repressora, evangélica, era proibida de sair conosco, então só nos encontrávamos em sala de aula.

Dois anos depois, em uma visita (eu tinha voltado a morar em São Paulo, capital, no começo de 1994), perguntei a R. sobre a C., e fiquei sabendo que ela havia morrido um ano antes. Fiquei chocada. Acho que foi a primeira morte de alguém jovem como eu e próximo de que tomei conhecimento. O mais chocante foi a causa: C. tinha morrido em decorrência de um aborto clandestino.

Ela engravidou em uma das raras saídas em que conseguiu escapar da vigilância da família. Quando descobriu a gravidez, desesperada, procurou uma “aborteira” na cidade vizinha. Foi encontrada empapada em sangue, em seu quarto, três horas depois.

Ninguém fez nada para ajudá-la.

Essas foram minhas experiências indiretas com o tema gravidez na adolescência.

Vendo o Revival de Gilmore Girls, dei-me conta de uma coisa que sempre me incomodou, mas que eu ainda não sabia o que era. Aí descobri. A gravidez de Lorelai, as tintas que usaram para colori-la, de como abordaram o assunto. Eu sei, é ficção, mas sinceramente, não houve perrengue algum em decorrência dessa gravidez adolescente. Então me incomoda o fato de usarem um problema sério de modo tão leviano, porque o que eu conheci na realidade, está muito distante do que vi na ficção.

Enfim, era só isso mesmo.

*She, Green Day.

We all need a big reduction in amount of tears

thecarousel

Há aqueles momentos em que precisamos que apenas uma coisa dê certo. Claro, há centenas de outras coisas que poderiam se acertar, mas aí já é pedir demais.

Desde outubro, minha vida é um carrossel que gira cada vez mais rápido. Tenho medo de que ele pare com um tranco. Sinto-me desmontar quando penso que ele pode continuar girando eternamente.

E nesse cenário só preciso que uma coisa dê certo para voltar a ter esperança.

Dear God, sorry to disturb you but
I feel that I should be heard loud and clear
We all need a big reduction in amount of tears
And all the people that you made in your image
See them fighting in the street
‘Cause they can’t make opinions meet about God
I can’t believe in you – Dear God, XTC

 

“But heaven knows I’m miserable now”

Às vezes, talvez com mais frequência do que seja possível mensurar, o peso que sinto nos meus ombros e em meu peito aumenta de tal forma que nem todas as palavras alemãs o traduziria.

Tem dias em que penso mais do que falo, procuro saídas para rotas que acabam em muros, remonto passados imperfeitos, projeto futuros de areia, faço ciranda com lembranças que apareceram do nada, que não dizem nada.

Em horas como estas, em que engulo cada palavra que deveria dizer, mas que não digo porque sei, eu me conheço, viro um daqueles monstros que perdem todo e qualquer filtro quando estão cansados, magoados, feridos e acabo cansando, magoando e ferindo quem está à minha volta, só consigo pensar em como seria bom, como seria ótimo, maravilhoso até, não existir.

A cada minuto que passa, o peso da existência e de tudo que ela traz, de bom e de ruim, de belo e feio, fazem meus ombros cederem mais alguns centímetros. Não me preparei para esse peso. Não sei perder.

Em vidas como essa, eu não sei existir.

36

Eu detesto fazer aniversário. Não lido bem com a ideia de envelhecer. Ficamos mais sábios? Nem sempre. Ficamos mais frágeis? Com certeza.

Do meu aniversário, gosto da data. Outubro sempre foi o mês que mais amei. Esse está particularmente complicado. 2016, um ano difícil. John Fante poderia reeditar seu livro e colocar esse ano como um ano ruim, mas ele não está vivo e eu estou envelhecendo. E outubro está perdendo sua magia.

Tenho rituais. Um dos mais prezados é passar o dia do meu aniversário andando por aí. Não deu para fazer isso. Há mais preocupações na cabeça do que espaço para elas. Na terapia, falamos da minha ansiedade e da minha necessidade de controle. Nenhuma das coisas difíceis que estão acontecendo no momento depende da minha intervenção direta para se resolver. Isso me mata aos pouquinhos, porque eu preciso ter um plano. Não funciono sem um.

No hay banda, no hay orquestra.

E, no meio do perrengue, pensei: se isso acontecer, telefonarei para fulana, pois não darei conta sozinha.

Fulana sofreu um acidente.

***

Li pouco entre setembro e outubro. Um dos que mais gostei foi Perdoar e Pecar, do Leandro Karnal. Fui aluna dele e o livro é como ouvi-lo falar em aula. Caí nas reminiscências.

Implicaram com o fato de ele falar apenas do cristianismo, islamismo e judaísmo. Ah, mas ele não tratou do budismo, da wicca, do xamanismo, blábláblá. Cara-pálida, amigo, a História sempre faz recorte. E não é um livro sobre religiões (aliás, tem um Livro de Ouro das Religiões). Trata do perdoar e do pecar e de como as duas coisas estão ligadas.

Gostei sobretudo da parte que ele discorre sobre a primeira família, segundo a bíblia. O pai e a mãe deram ouvidos ao diabo, o filho mais novo foi morto, o mais velho vagou sobre a terra com o selo de assassino.

Tudo isso porque Deus gosta mais de ovelhas do que de produtos hortifruti. E pune pessoas que desejam conhecimento ou comem o que não deve.

(Aliás, interessante essa ideia de que o primeiro pecado se deu pela gula. Comilões sendo demonizados desde o princípio.)

Agora me diz, como poderíamos ter dado certo com esse background aí? (Hipoteticamente falando.)

Triangulando

Vi no blog da Lolla, que é um dos meus blogs preferidos. Estou procrastinando trabalho, sozinha e meio na bad. Então, vou falar de mim, que é o que tem para hoje:

3 coisas que me dão medo
– insetos
– morte de pessoas e animais queridos
– violência

3 coisas que me dão preguiça
– falar ao telefone
– “textão” sem pé nem cabeça
– pessoa que adora falar move on, mas que está empacadíssima na vida

3 coisas que eu gosto
– cheiro de amaciante
– creme de leite
– criar discussões aleatórias dentro da minha cabeça

3 coisas que eu sei fazer
– interpretar texto
– criar falsas esperanças
– pregar botão

3 coisas que eu não sei fazer
– falar ao telefone
– esperar
– cultivar amizades

3 assuntos preferidos
– livros
– nostalgias
– bobagens aleatórias

3 assuntos que eu não curto discutir
– política
– assuntos íntimos
– meus livros preferidos

3 cheiros preferidos
– lavanda
– cítricos em geral
– cheiro de bolo recém-saído do forno

3 cheiros que eu detesto
– cigarro
– o da cidade de São Paulo
– perfumes doces

3 melhores comidas
– pizza
– bolo
– ceviche

3 piores comidas
– quiabo
– jiló
– fígado

3 piores redes sociais
– facebook
– facebook
– facebook

3 melhores redes sociais
– tumblr
– instagram
– twitter
(ok: instagram, tumblr e twitter)

3 melhores bebidas
– mate com limão
– suco de abacaxi
– chai

3 piores bebidas
– suco de melancia
– café requentado
– pepsi

3 coisas que me acalmam
– ler
– cantar
– dançar

3 coisas que levam todo o meu dinheiro
– comida
– artigos de papelaria
– livros

3 coisas em que eu detesto gastar dinheiro
– remédios
– tranqueiras das lojas de 1,99
– comida ruim

3 coisas que me estressam
– pessoas
– ter de esperar
– ter de dizer a mesma coisa mais de uma vez

3 coisas que eu vou fazer essa semana
– ir ao médico
– fazer uma linha do tempo
– terminar um trabalho

3 coisas que eu fiz na semana passada
– comecei um trabalho
– achei que fosse morrer
– passei roupa (coisa que nunca faço)

3 coisas que eu quero fazer em breve
– viajar
– resolver uma questão de saúde
– comemorar

3 coisas que eu deveria fazer em breve
– resolver uma questão de saúde
– parar de procrastinar
– arrumar todas as coisas que vão para a doação

3 coisas que eu não quero fazer
– resolver uma questão de saúde
– arrumar todas as coisas que preciso arrumar
– pensar no futuro

Não serei nem terás sido*

Às vezes, pego-me vendo a vida pelas frestas. Espiando seus pequenos detalhes e formando com eles uma nova história para os meus dias. O diabo mora nos detalhes. E tanto nos foge quando não olhamos para eles.

Há toda uma história maior se desenrolando, tenho plena consciência disso, porém se eu falar que me atenho a ela, estarei mentindo. Ando cansada demais para me importar com o todo. Então, vou por partes, pelas frestas, aos bocadinhos. Não tenho a intenção de abocanhar a vida inteira. Sigo aos poucos.

E, de pouco em pouco, de fresta em fresta, descubro coisas que não tinha visto ainda e consigo me surpreender um pouco a cada dia e isso, ah, isso tem me trazido um pouco de paz de espírito e de alento, porque a realidade de todos é dura e a de cada um em particular, uma incógnita.

Na tarde de sábado, uma verdade apareceu com mais força: o tempo está passando e envelheço a cada dia. Minha mãe envelhece. Minha avó envelhece. As mulheres da minha vida: cada dia, menos um que terei com elas. Pela primeira vez, não fiquei triste diante do inevitável e me dei conta de que não dá mais para esmurrar a faca de dois gumes que é aquilo que não podemos evitar. Não foi uma iluminação, foi apenas um olhar pela fresta.

Com um peso enorme saído das costas, pude de novo me levantar. E ser mais gentil comigo. Como eu disse para minha mãe, depois de tudo, a grande verdade que aprendi é que não sou obrigada. Então, as coisas agora passam por esse critério. E assim aproveito o dia como ele vem. Porque quando ele parar de vir, não serei mais.

“Vemos as folhas assando num dia quente de agosto e, mesmo assim, acreditamos que nada vai mudar. Nossos impérios vão durar para sempre.” – Neil Gaiman, em Alerta de Risco.

*Oração ao Tempo, Caetano Veloso.