We’re going through the motions*

Minha filha mais velha me acha a pessoa mais autoconfiante que ela conhece.

Quando me descreve, autoconfiança é o que vem em primeiro, seguido de “devoradora de livros”. O que ela não sabe é que foi um longo processo para chegar no estágio onde me encontro, em que consigo transmitir autoconfiança (que vacila mais vezes do que o desejável).

Foram anos me achando feia e inadequada em todos os ambientes frequentados. Sou estrábica, gorda e meu cabelo começou a encrespar, quando entrei na adolescência (até então, era liso escorrido), para completar, eu usava um corte de cabelo para lá de duvidoso. Foram os livros que me salvaram e a minha inteligência (não tenho porque ser modesta quanto a isso). Percebi, desde cedo, que precisava de uma armadura para me posicionar no mundo e as leituras foram o material que usei para forjá-la. Então, acabei me destacando pelo que sabia, não pelo que eu era. O que, naquela época, não era lá muita coisa.

Só que os anos passaram e comecei a me incomodar com a imagem que tinha de mim. Trabalhei isso anos na terapia. Passei anos demais ouvindo que era feia, vesga, gorda, desconjuntada de várias pessoas que me rodeavam, importantes para a minha formação. O olhar do outro moldou o que eu via no espelho e não era nada bom, nada.

Fui começar a me libertar disso no ano em que me mudei para uma cidade do interior de São Paulo, onde me viam como “a menina da cidade grande” e lá pude começar a me reinventar, com a ajuda de tudo que já tinha lido. As pessoas não enxergavam em mim a menina desconjuntada, mas sim a garota que tinha lido mais do que todo mundo, sabia músicas maneiras e se vestia de um jeito excêntrico e pintava o cabelo de vermelho 666 (jeans rasgado, camisa xadrez e all star preto – auge do movimento grunge). Que fase maravilhosa! E coincidiu com a minha entrada na adolescência. Quando voltei para a capital, estava um tanto transformada, mas como me inseri no mesmo ambiente nocivo de antes, retrocedi um bom pedaço.

O processo de mudança ganhou novo gás no ano  em que entrei no cursinho pré-vestibular. Cercada de pessoas tão ferradas financeiramente quanto eu e com o mesmo desejo de saber. Era uma turma bem eclética e estranha. Fui acolhida ali. E foi ótimo. Mais uma vez, eu era quem queria ser, a pessoa que estava atrás do reflexo no espelho. E comecei a me achar bonita também, passei a me ver de um jeito diferente. E a gostar do que via.

2017 tem sido um ano de mudanças que eu escolhi fazer. Não tenho mais problemas de autoestima ligados ao físico. Na verdade, meio que apertei o botão do foda-se para o que as pessoas acham ideal, padrão e o diabo a quatro que for. Canto em público, danço no meio da rua, rio alto, uso minhas roupas excêntricas, uso maquiagem (o que um dia foi impensável para mim). E gostaria de ser tão confiante assim em outros setores da minha vida.

Mas sei que é um processo e eu ainda não terminei. Já consigo ver que sou boa em algumas coisas e ótima em outras.

Antes, eu me achava apenas um imenso desperdício de espaço.

E devo agradecer à minha filha por sua generosidade e seu olhar sobre mim, que abriu meus olhos.

*I’m a mess, Ed Sheeran.

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Although I searched myself, it’s always someone else I see

Pareço uma criança mimada. Estou agindo como uma. Há momentos que me dou conta disso, mas estou puta da vida em ser privada de uma felicidadezinha, que só eu sei o valor imenso que teria para mim.

Era só isso.