Jude St. Francis

“What he knew, he knew from books, and books lied, they made things prettier.” A little life,  Hanya Yanagihara.

Desde o ano passado, quando li a tetralogia de Elena Ferrante, criei uma nova categoria de livros: os Ferranti. E Uma Vida Pequena entra nessa classificação. É o meu Ferrante de 2017.  Um livro que precisei ler aos poucos, o que é raro para mim, mas se não fosse assim, corria o risco de ter uma síncope.

Comecei minha análise pessoal pelo nome da protagonista principal, Jude St. Francis, o Judas, nome que ganhou na infância e, que dentre outras inúmeras coisas, serviu-lhe como indício do que ele realmente era. Em contrapartida, há o sobrenome, St. Francis, um indicativo do que seria seu futuro. Enquanto conhecemos Judas como aquele que traiu o Filho do Homem; alguém consumido pelo próprio remorso e arrependimento, há quem diga que Judas não fez mais do que cumprir sua parte em um trato pré-estabelecido, sendo o vetor do Cristianismo. Uma peça necessária dentro de um projeto arquitetado pelo mesmo Deus que engravidou uma virgem e precisava de seu filho morto para se afirmar como único.

Mas é o sobrenome que nos diz quem é o Jude de Uma Vida Pequena.

Dante Alighieri diz, no Canto XI, Paraíso, em A Divina Comédia:

[…] nacque al mondo un sole […]

(nasceu ao mundo um sol.)

O poeta faz referência ao nascimento de São Francisco de Assis. O santo que carregou mazelas físicas por toda a vida, depois de ter passado pela guerra (entre Assis e Peruggia, no século XIII). Depois de sua conversão, São Francisco passou a viver de esmolas, despiu-se de sua origem nobre, vivendo como um eremita.

Jude St. Francis absorveu toda simbologia de seu nome, enquanto seus amigos tentavam lhe mostrar que era em seu sobrenome que repousava sua verdadeira essência. Mais do que falar sobre relacionamentos e amizades, o livro trata do desenrolar de uma vida sujeita a percalços, aos horrores, ao inominável, onde também há momentos de beleza que salvam a humanidade que há em cada um.

A vida de Jude se polariza entre momentos de felicidade inacreditáveis (e o adjetivo aqui é devido à crença dele de que ser feliz não é uma coisa destinada a si) e o inferno onde ele passou a infância e parte da adolescência que lhe deixaram sequelas permanentes.

Uma vida pequena espremida entre o trauma e o se, pincelada por instantes fora da armadura necessária para viver apesar de.

“But what was happiness but an extravagance, an impossible state to maintain, partly because it was so difficult to articulate?”

Recomendo muito a leitura. A melhor que fiz até agora. E um dos melhores livros que li em minha vida. Tem um quê de Philip Roth e foi uma das melhores obras que a nova literatura americana produziu nos últimos tempos.

5/5

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Autor: veronyx

"I am not a smile." - SP

2 comentários em “Jude St. Francis”

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