30-Something Gang*

(Ou como um clube define bem toda uma população.)

AVISO: POST SOBRE O REVIVAL DE GILMORE GIRLS. SPOILERS À VISTA. LEITURA POR SUA CONTA E RISCO.

Caso não se incomode, hold’on little one, we gonna have thrills (unfortunately, the cheap ones).

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Minha melhor amiga e madrinha das minhas filhas e eu nos conhecemos na faculdade. E nossa amizade começou com um paper chat sobre séries.  Falávamos de Dawson’s Creek (Pacey Forever) e foi ela que me apresentou as Garotas Gilmore.

Quando assisti à série pela primeira vez, encantei-me com Rory, enfiei-me de cabeça no desafio Rory Gilmore de leitura e queria ser aquela garota prodígio que conseguia tirar A em tudo, fazer todos os trabalhos, ler todos os livros, ter a pele imaculada e os namorados mais gatos. Achava Lorelai bacana, embora não tenha entendido o drama em sua vida: vinda de uma família rica, acolhida por uma cidade saída de um conto de fadas, bem-nutrida, com todas as referências pop possíveis, com tempo para dirigir uma pousada, costurar para todos os eventos da cidadezinha, shows, baladas, namorados e ainda ser magra, comendo só junk food. Ah, gravidez aos 16 anos. Drama? Não no caso dela.

Minha mãe é uma megera, meu pai é ausente, sou orgulhosa o bastante para renegar minhas raízes e vir a ser a self-made woman in my american dream

Ok, então.

Na série, o mundo real se concentra no dinheiro. É através de sua abundância ou de sua falta que as tramas se desenrolam. O maior banco é Richard & Emily Gilmore. E como uma instituição financeira, exigem condições para empréstimos e assinatura em notas promissórias. Foi assim com as mensalidades de Chilton, seria assim com Yale, caso Christopher, o pai problemático, ausente (com uma pequena alienação parental ali escondidinha) não deixasse de ser o rebelde da motocicleta e se tornasse um profissional endinheirado. O dinheiro dos Gilmore garantiu a tão sonhada pousada de Lorelai.

Minha mãe é uma megera, meu pai é um ausente.

Mas eles têm dinheiro.

Corta para o ano de 2016.

Quando saiu a notícia de que haveria um revival bancado pela Netflix, todo mundo se ouriçou. Ó como será agora? Rory tinha saído de casa para acompanhar as primárias do Obama e como ela volta quando uma mulher lança sua candidatura à presidência americana? A mesma mulher que foi citada algumas vezes na série (e que não foi mencionada no revival)? Lorelai resolveu sua tensão sexual com Luke Danes, sócio antiquíssimo da friendzone? Quem será que ficará com Rory, a garota prodígio? Dean, o primeiro amor? Jess, o primeiro cafajeste? Logan, o primeiro a tratá-la razoavelmente bem? (Eu tinha uma queda pelo Logan, admito.)

Primeiro de tudo, Edward Herrmann, que fazia Richard Gilmore, faleceu em 2014. E fez falta no retorno. A morte de sua personagem foi o agente catalisador de algumas mudanças, sobretudo em Emily. Quando revi a série, identifiquei-me muito mais com a mãe megera e o pai ausente e queria mandar Lorelai fazer análise. Ao meu ver, tanto Richard, quanto Emily agiram de acordo com suas crenças e meio. A filha de 16 anos engravidou. O namorado, de boa família, aceitou se casar e assumir a criança. Até a gravidez, os jovens pareciam um casal apaixonado. Qual seria a saída mais lógica?

Na cabeça da Lorelai de 16 anos a saída foi fugir para um lugar desconhecido e apostar na sorte, levando um bebê por nascer consigo.

Tudo deu certo, pois estamos falando de ficção cor-de-rosa. Chick-lit sem dezenas de tons de qualquer cor que não rosada.

Mas, em Gilmore Girls 2.0, tivemos o prazer (pelo menos eu tive) de constatar que a vida, mesmo que ficcional, não suporta tons pastéis em demasia.

Rory, como qualquer pessoa de 32 anos, formada em jornalismo, em pleno ano da graça de 2016, está sem emprego e sem perspectivas. Foi recusada pela Condé Nast, um dos maiores grupos editoriais do mundo, o que significa que muitas portas lhe foram fechadas. Tentou, como penúltima alternativa (a última seria dar aulas em seu antigo colégio, mas quem quer ser professor hoje em dia? A menina prodígio não quer) se encaixar em um site/blog de opinião, com um nome duvidoso e conteúdo idem. Não soube vender seu peixe à sua contratante e nem sequer conseguiu xingá-la como uma pessoa adulta.

Encontramos Lorelai morando com Luke, mas não casada, o que ela insiste não ser um problema. Ela não consegue se lembrar uma única coisa positiva para falar sobre o pai em seu funeral. A mãe a coloca em uma terapia em conjunto (Emily tendo a voz da razão) e a vidinha tão estruturada da nossa heroína vai desmoronando pedaço por pedaço, a cada meia hora, em média.

Então, temos o seguinte quadro ilustrado pela imagem que abre o post. As garotas Gilmore e Luke Danes que nunca fez e nunca fará parte desse clã fora do esquadro, um elemento à parte, intrusivo. Ele está completamente deslocado, seja na fotografia, no figurino e com a mesma cara de constrangimento de sempre.

Rory revê seus três namorados. Logan aparece como um caso sem compromisso, mas bem mais do que isso, porque nada na vida dessas garotas é en passant. Está noivo de outra, mas isso não é um problema. A in omnia paratus ressurge com sua pompa, circunstância e dinheiro, muito dinheiro para resgatar a menina prodígio do marasmo de sua vida e mostrar o caminho da luz e da glória: vá escrever um livro. Não é o que todo mundo anda fazendo ultimamente?

Dean, o primeiro namorado, que se mostrou um belo de um machista quando revi, teve seus 30 segundos de tela e além de preencher a cota de americano padrão, casado e com uma penca de filho dá o seguinte conselho: vá escrever um livro, afinal você já leu todos.

E Jess, o primeiro cafajeste, ressurge para ser o novo Luke Danes da nova Lorelai Gilmore, uma mulher de 32 anos, sem perspectiva profissional, grávida (de Logan talvez?).

Como disse Lorelai em um brinde com Emily, quando foi lhe pedir dinheiro para uma expansão da pousada: Ao ciclo da vida, que se repete.

Lorelai se encontra no casamento. Casar-se com Luke, depois de quase 20 anos de embromação, é a solução para todos os seus dramas existenciais.

O ponto alto do revival para mim foi Emily e como a personagem evoluiu depois da morte de Richard. Ela se libertou. Diria que ficou completa. Deu a volta em si mesma e cimentou todos os buracos que uma existência é capaz de fazer. Aprendeu a conviver com pessoas diferentes, mandou às favas o mundo artificial em que vivia, da casa luxuosa e digna de um acumulador à Daughters of the American Revolution, com uma saída bem digna. Não foi à toa que seu final foi o mais inspirador e cheio de paz. Ela está completa consigo mesma.

 

Pontos sofríveis:

Por que inserir do nada e sem qualquer explicação um Mr. Kim? Desnecessário.

Ficou claro na tela que Melissa McCarthy não estava à vontade em cena. O rumo que deram para a personagem, para explicar a aparição de última hora, também foi ridículo. A Sookie que fundou a pousada junto com Lorelai e Michel não teria seguido este caminho. O reencontro das duas soou deslocado e sem o afeto que esbanjavam na série.

O casamento de Lorelai e Luke. Seriously? 

Pela conversa que Rory teve com o pai não deu para ter certeza se ela incluirá ou não Logan (se ele for o pai do bebê que ela espera) na criação do filho. Contudo, ficou clara uma certa mágoa da parte dela para com os pais, sobretudo por ele ter concordado com a atitude de Lorelai.

A terapia poderia ter sido melhor explorada, mas fizeram questão de desautorizarem a terapeuta, colocando-a como atriz substituta naquele musical horrendo sobre Stars Hollow (Sério, a cidade que muita gente ama não está em nada representada no que foi mostrado).

Detestei as piadas gordofóbicas.

Pontos Positivos:

Finalmente vi Lorelai caindo na real (não durou muito tempo, mas valeu mesmo assim).

Kirk, Taylor e Michel.

Paris sendo Paris.

O fechamento do ciclo da Emily.

 

Podem discordar à vontade. Muitas pessoas que conheço, inclusive minha melhor amiga, amam a série. Da minha parte, acho que nunca foi essa coisa toda e eu é que não percebi antes.

(Mas estou velha, rabugenta e cheia de problemas reais. Acho que perdi a capacidade de me encantar, tão necessária para encarar certas ficções.)

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Autor: veronyx

"I am not a smile." - SP

7 comentários em “30-Something Gang*”

  1. eu adorava a série. revi e tenho zilhões de críticas (cara, essa parada do dinheiro é tudo, tudo gira em torno disso, a própria “independência” da Lorelai é so-so, né? deu problema? dinheiro dos pais), mas consegui entender por que adorava a série original.
    esse revival, pra mim, não precisava existir. eu tava com medo dele e ver os 2 1°s episódios me mostrou q eu tava certa em ter medo. Só vi esses. Não sei se vou ver os outros. Tá todo mundo como caricatura ruim de si mesmo.

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    1. Esse revival conseguiu matar a série original para mim, Rê. Fiquei bronqueada até com a Melissa McCarthy, que não teve a elegância de liberar um espacinho decente na agenda e honrar a personagem que lhe deu fama.

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