She screams in silence*

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Ainda sobre Gilmore Girls e as lembranças que o Revival me despertaram.

Gravidez na adolescência. Consigo me lembrar de dois acontecimentos, claro que dever ter havido outros, mas esses dois me marcaram pela proximidade e pela brutalidade marcante de ambos.

Aos 9 anos, eu morava em São Paulo e, na casa do lado da minha, morava uma família predominantemente de mulheres. O pai aparecia muito de vez em quando e o melhor adjetivo que posso encontrar para ele é sombrio. Vestia a fantasia de homem honesto e correto, mas nas poucas vezes em que surgia, trazia consigo gritos e choros que ecoavam por toda vizinhança.

A filha mais velha ficou grávida aos 16. Lembro-me bem dela, uma garota vivaz, alegre, de sorriso amplo. Ela engravidou e continuou morando na casa da mãe; a gravidez era comentada em sussurros. Quando o pai soube, houve uma surra medonha. Ele a trancou no banheiro e bateu nela, muito, demais, com um fio.

Da laje da minha casa dava para ver o banheiro onde ele a trancou. Os gritos, a situação, a família toda ali, todo mundo sabendo o que estava acontecendo.

Ele surrou a filha grávida.

E ninguém fez nada.

Depois, ela teve o bebê, uma menina. A família inteira adorava a criança. Inclusive o pai que surrou a mãe da neta durante a gravidez.

Aos 12, morando em outra cidade e com dificuldades de adaptação, juntei-me a duas outras meninas que, com o passar do tempo, passei a chamar de amigas. A R. era mais próxima, viamo-nos sempre, íamos juntas para a escola. A C. era mais distante. De família extremamente repressora, evangélica, era proibida de sair conosco, então só nos encontrávamos em sala de aula.

Dois anos depois, em uma visita (eu tinha voltado a morar em São Paulo, capital, no começo de 1994), perguntei a R. sobre a C., e fiquei sabendo que ela havia morrido um ano antes. Fiquei chocada. Acho que foi a primeira morte de alguém jovem como eu e próximo de que tomei conhecimento. O mais chocante foi a causa: C. tinha morrido em decorrência de um aborto clandestino.

Ela engravidou em uma das raras saídas em que conseguiu escapar da vigilância da família. Quando descobriu a gravidez, desesperada, procurou uma “aborteira” na cidade vizinha. Foi encontrada empapada em sangue, em seu quarto, três horas depois.

Ninguém fez nada para ajudá-la.

Essas foram minhas experiências indiretas com o tema gravidez na adolescência.

Vendo o Revival de Gilmore Girls, dei-me conta de uma coisa que sempre me incomodou, mas que eu ainda não sabia o que era. Aí descobri. A gravidez de Lorelai, as tintas que usaram para colori-la, de como abordaram o assunto. Eu sei, é ficção, mas sinceramente, não houve perrengue algum em decorrência dessa gravidez adolescente. Então me incomoda o fato de usarem um problema sério de modo tão leviano, porque o que eu conheci na realidade, está muito distante do que vi na ficção.

Enfim, era só isso mesmo.

*She, Green Day.

30-Something Gang*

(Ou como um clube define bem toda uma população.)

AVISO: POST SOBRE O REVIVAL DE GILMORE GIRLS. SPOILERS À VISTA. LEITURA POR SUA CONTA E RISCO.

Caso não se incomode, hold’on little one, we gonna have thrills (unfortunately, the cheap ones).

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Minha melhor amiga e madrinha das minhas filhas e eu nos conhecemos na faculdade. E nossa amizade começou com um paper chat sobre séries.  Falávamos de Dawson’s Creek (Pacey Forever) e foi ela que me apresentou as Garotas Gilmore.

Quando assisti à série pela primeira vez, encantei-me com Rory, enfiei-me de cabeça no desafio Rory Gilmore de leitura e queria ser aquela garota prodígio que conseguia tirar A em tudo, fazer todos os trabalhos, ler todos os livros, ter a pele imaculada e os namorados mais gatos. Achava Lorelai bacana, embora não tenha entendido o drama em sua vida: vinda de uma família rica, acolhida por uma cidade saída de um conto de fadas, bem-nutrida, com todas as referências pop possíveis, com tempo para dirigir uma pousada, costurar para todos os eventos da cidadezinha, shows, baladas, namorados e ainda ser magra, comendo só junk food. Ah, gravidez aos 16 anos. Drama? Não no caso dela.

Minha mãe é uma megera, meu pai é ausente, sou orgulhosa o bastante para renegar minhas raízes e vir a ser a self-made woman in my american dream

Ok, então.

Na série, o mundo real se concentra no dinheiro. É através de sua abundância ou de sua falta que as tramas se desenrolam. O maior banco é Richard & Emily Gilmore. E como uma instituição financeira, exigem condições para empréstimos e assinatura em notas promissórias. Foi assim com as mensalidades de Chilton, seria assim com Yale, caso Christopher, o pai problemático, ausente (com uma pequena alienação parental ali escondidinha) não deixasse de ser o rebelde da motocicleta e se tornasse um profissional endinheirado. O dinheiro dos Gilmore garantiu a tão sonhada pousada de Lorelai.

Minha mãe é uma megera, meu pai é um ausente.

Mas eles têm dinheiro.

Corta para o ano de 2016.

Quando saiu a notícia de que haveria um revival bancado pela Netflix, todo mundo se ouriçou. Ó como será agora? Rory tinha saído de casa para acompanhar as primárias do Obama e como ela volta quando uma mulher lança sua candidatura à presidência americana? A mesma mulher que foi citada algumas vezes na série (e que não foi mencionada no revival)? Lorelai resolveu sua tensão sexual com Luke Danes, sócio antiquíssimo da friendzone? Quem será que ficará com Rory, a garota prodígio? Dean, o primeiro amor? Jess, o primeiro cafajeste? Logan, o primeiro a tratá-la razoavelmente bem? (Eu tinha uma queda pelo Logan, admito.)

Primeiro de tudo, Edward Herrmann, que fazia Richard Gilmore, faleceu em 2014. E fez falta no retorno. A morte de sua personagem foi o agente catalisador de algumas mudanças, sobretudo em Emily. Quando revi a série, identifiquei-me muito mais com a mãe megera e o pai ausente e queria mandar Lorelai fazer análise. Ao meu ver, tanto Richard, quanto Emily agiram de acordo com suas crenças e meio. A filha de 16 anos engravidou. O namorado, de boa família, aceitou se casar e assumir a criança. Até a gravidez, os jovens pareciam um casal apaixonado. Qual seria a saída mais lógica?

Na cabeça da Lorelai de 16 anos a saída foi fugir para um lugar desconhecido e apostar na sorte, levando um bebê por nascer consigo.

Tudo deu certo, pois estamos falando de ficção cor-de-rosa. Chick-lit sem dezenas de tons de qualquer cor que não rosada.

Mas, em Gilmore Girls 2.0, tivemos o prazer (pelo menos eu tive) de constatar que a vida, mesmo que ficcional, não suporta tons pastéis em demasia.

Rory, como qualquer pessoa de 32 anos, formada em jornalismo, em pleno ano da graça de 2016, está sem emprego e sem perspectivas. Foi recusada pela Condé Nast, um dos maiores grupos editoriais do mundo, o que significa que muitas portas lhe foram fechadas. Tentou, como penúltima alternativa (a última seria dar aulas em seu antigo colégio, mas quem quer ser professor hoje em dia? A menina prodígio não quer) se encaixar em um site/blog de opinião, com um nome duvidoso e conteúdo idem. Não soube vender seu peixe à sua contratante e nem sequer conseguiu xingá-la como uma pessoa adulta.

Encontramos Lorelai morando com Luke, mas não casada, o que ela insiste não ser um problema. Ela não consegue se lembrar uma única coisa positiva para falar sobre o pai em seu funeral. A mãe a coloca em uma terapia em conjunto (Emily tendo a voz da razão) e a vidinha tão estruturada da nossa heroína vai desmoronando pedaço por pedaço, a cada meia hora, em média.

Então, temos o seguinte quadro ilustrado pela imagem que abre o post. As garotas Gilmore e Luke Danes que nunca fez e nunca fará parte desse clã fora do esquadro, um elemento à parte, intrusivo. Ele está completamente deslocado, seja na fotografia, no figurino e com a mesma cara de constrangimento de sempre.

Rory revê seus três namorados. Logan aparece como um caso sem compromisso, mas bem mais do que isso, porque nada na vida dessas garotas é en passant. Está noivo de outra, mas isso não é um problema. A in omnia paratus ressurge com sua pompa, circunstância e dinheiro, muito dinheiro para resgatar a menina prodígio do marasmo de sua vida e mostrar o caminho da luz e da glória: vá escrever um livro. Não é o que todo mundo anda fazendo ultimamente?

Dean, o primeiro namorado, que se mostrou um belo de um machista quando revi, teve seus 30 segundos de tela e além de preencher a cota de americano padrão, casado e com uma penca de filho dá o seguinte conselho: vá escrever um livro, afinal você já leu todos.

E Jess, o primeiro cafajeste, ressurge para ser o novo Luke Danes da nova Lorelai Gilmore, uma mulher de 32 anos, sem perspectiva profissional, grávida (de Logan talvez?).

Como disse Lorelai em um brinde com Emily, quando foi lhe pedir dinheiro para uma expansão da pousada: Ao ciclo da vida, que se repete.

Lorelai se encontra no casamento. Casar-se com Luke, depois de quase 20 anos de embromação, é a solução para todos os seus dramas existenciais.

O ponto alto do revival para mim foi Emily e como a personagem evoluiu depois da morte de Richard. Ela se libertou. Diria que ficou completa. Deu a volta em si mesma e cimentou todos os buracos que uma existência é capaz de fazer. Aprendeu a conviver com pessoas diferentes, mandou às favas o mundo artificial em que vivia, da casa luxuosa e digna de um acumulador à Daughters of the American Revolution, com uma saída bem digna. Não foi à toa que seu final foi o mais inspirador e cheio de paz. Ela está completa consigo mesma.

 

Pontos sofríveis:

Por que inserir do nada e sem qualquer explicação um Mr. Kim? Desnecessário.

Ficou claro na tela que Melissa McCarthy não estava à vontade em cena. O rumo que deram para a personagem, para explicar a aparição de última hora, também foi ridículo. A Sookie que fundou a pousada junto com Lorelai e Michel não teria seguido este caminho. O reencontro das duas soou deslocado e sem o afeto que esbanjavam na série.

O casamento de Lorelai e Luke. Seriously? 

Pela conversa que Rory teve com o pai não deu para ter certeza se ela incluirá ou não Logan (se ele for o pai do bebê que ela espera) na criação do filho. Contudo, ficou clara uma certa mágoa da parte dela para com os pais, sobretudo por ele ter concordado com a atitude de Lorelai.

A terapia poderia ter sido melhor explorada, mas fizeram questão de desautorizarem a terapeuta, colocando-a como atriz substituta naquele musical horrendo sobre Stars Hollow (Sério, a cidade que muita gente ama não está em nada representada no que foi mostrado).

Detestei as piadas gordofóbicas.

Pontos Positivos:

Finalmente vi Lorelai caindo na real (não durou muito tempo, mas valeu mesmo assim).

Kirk, Taylor e Michel.

Paris sendo Paris.

O fechamento do ciclo da Emily.

 

Podem discordar à vontade. Muitas pessoas que conheço, inclusive minha melhor amiga, amam a série. Da minha parte, acho que nunca foi essa coisa toda e eu é que não percebi antes.

(Mas estou velha, rabugenta e cheia de problemas reais. Acho que perdi a capacidade de me encantar, tão necessária para encarar certas ficções.)

We all need a big reduction in amount of tears

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Há aqueles momentos em que precisamos que apenas uma coisa dê certo. Claro, há centenas de outras coisas que poderiam se acertar, mas aí já é pedir demais.

Desde outubro, minha vida é um carrossel que gira cada vez mais rápido. Tenho medo de que ele pare com um tranco. Sinto-me desmontar quando penso que ele pode continuar girando eternamente.

E nesse cenário só preciso que uma coisa dê certo para voltar a ter esperança.

Dear God, sorry to disturb you but
I feel that I should be heard loud and clear
We all need a big reduction in amount of tears
And all the people that you made in your image
See them fighting in the street
‘Cause they can’t make opinions meet about God
I can’t believe in you – Dear God, XTC

 

“But heaven knows I’m miserable now”

Às vezes, talvez com mais frequência do que seja possível mensurar, o peso que sinto nos meus ombros e em meu peito aumenta de tal forma que nem todas as palavras alemãs o traduziria.

Tem dias em que penso mais do que falo, procuro saídas para rotas que acabam em muros, remonto passados imperfeitos, projeto futuros de areia, faço ciranda com lembranças que apareceram do nada, que não dizem nada.

Em horas como estas, em que engulo cada palavra que deveria dizer, mas que não digo porque sei, eu me conheço, viro um daqueles monstros que perdem todo e qualquer filtro quando estão cansados, magoados, feridos e acabo cansando, magoando e ferindo quem está à minha volta, só consigo pensar em como seria bom, como seria ótimo, maravilhoso até, não existir.

A cada minuto que passa, o peso da existência e de tudo que ela traz, de bom e de ruim, de belo e feio, fazem meus ombros cederem mais alguns centímetros. Não me preparei para esse peso. Não sei perder.

Em vidas como essa, eu não sei existir.