“As pessoas são sonhos, estranheza e falta de jeito”*

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Sleepy & Beauty

Falar sobre Neil Gaiman, sem falar de você é quase uma heresia; afinal até conhecê-la, eu só tinha lido o primeiro volume de Sandman e ficado impressionada, mas não a ponto de gostar realmente do autor. Aí aconteceu você e, uau, que bom que aconteceu por vários motivos, mas ele está entre os principais.

Tal como um conto de Gaiman, seu acontecimento foi rápido e abrasador. Veio em uma bruma, foi-se em uma ventania. E, mesmo em pouco tempo, deixou marcas e cicatrizes que, após 12 anos, ainda são bem visíveis.

Então, quando li Alerta de Risco, novo livro de contos dele, foi inevitável não me lembrar de você e me perguntar se, por acaso, já tinha lido, o que achou. Cada conto me transportou a um instante que passei ao seu lado. O Shadow conversando com a Bast, no último deles, lembrou-me a nossa última conversa e nenhuma de nós sabíamos que seria a última; acredito que por isso, ela foi tão alegre. E me dei conta que você e Gaiman sempre serão inseparáveis para mim.

Falando sobre o livro (e levando em conta a memória afetiva que ele me desperta), só posso dizer que é bom. É bom porque os contos são bem amarrados. É bom porque traz alguns poemas. É bom porque é Gaiman do princípio ao fim. É bom porque tem o Shadow. É bom porque cada história parece real (mesmo sendo contos de fantasia, suspense, mistério e ficção científica). É bom porque é triste. Porque tem coisas que o leitor não espera. É bom porque é do tipo de livro no qual você fica pensando quando termina. É bom porque traz prefácio e anotações sobre os contos, o que ajuda a entendê-los. É bom porque você é a Cassandra na minha imaginação.

É bom porque dá um refresco, porque parece história que se contava quando eu era criança. É bom porque fala de vingança e de escolhas e de monstros que de tão imaginários passam a ser reais. É bom porque alenta, embala o sono.

Sou suspeita, sempre serei quando se trata de Gaiman.

Obrigada por ter me apresentado alguém para amar na sua ausência.

* Respeitando as formalidades, Neil Gaiman in Alerta de Risco.

Não serei nem terás sido*

Às vezes, pego-me vendo a vida pelas frestas. Espiando seus pequenos detalhes e formando com eles uma nova história para os meus dias. O diabo mora nos detalhes. E tanto nos foge quando não olhamos para eles.

Há toda uma história maior se desenrolando, tenho plena consciência disso, porém se eu falar que me atenho a ela, estarei mentindo. Ando cansada demais para me importar com o todo. Então, vou por partes, pelas frestas, aos bocadinhos. Não tenho a intenção de abocanhar a vida inteira. Sigo aos poucos.

E, de pouco em pouco, de fresta em fresta, descubro coisas que não tinha visto ainda e consigo me surpreender um pouco a cada dia e isso, ah, isso tem me trazido um pouco de paz de espírito e de alento, porque a realidade de todos é dura e a de cada um em particular, uma incógnita.

Na tarde de sábado, uma verdade apareceu com mais força: o tempo está passando e envelheço a cada dia. Minha mãe envelhece. Minha avó envelhece. As mulheres da minha vida: cada dia, menos um que terei com elas. Pela primeira vez, não fiquei triste diante do inevitável e me dei conta de que não dá mais para esmurrar a faca de dois gumes que é aquilo que não podemos evitar. Não foi uma iluminação, foi apenas um olhar pela fresta.

Com um peso enorme saído das costas, pude de novo me levantar. E ser mais gentil comigo. Como eu disse para minha mãe, depois de tudo, a grande verdade que aprendi é que não sou obrigada. Então, as coisas agora passam por esse critério. E assim aproveito o dia como ele vem. Porque quando ele parar de vir, não serei mais.

“Vemos as folhas assando num dia quente de agosto e, mesmo assim, acreditamos que nada vai mudar. Nossos impérios vão durar para sempre.” – Neil Gaiman, em Alerta de Risco.

*Oração ao Tempo, Caetano Veloso.

I keep on talkin’ trash but I never say anything*

“Dor chega em todas as formas possíveis. Uma dorzinha aguda, um pouquinho de depressão, a dor aleatória com que convivemos todos os dias. Então tem o tipo de dor que você simplesmente não consegue ignorar, um nível tão grande de dor que bloqueia todo o resto, faz com o que o mundo inteiro desapareça até que a gente só consiga pensar que o tanto que machucamos e a maneira com que lidamos com a dor é totalmente pessoal. Nós anestesiamos, sobrevivemos a ela, ou a abraçamos, ou ignoramos. Para alguns de nós, a melhor maneira de lidar com ela é atravessando-a.

[…]

A dor. Você só tem que sobreviver a ela, esperar que ela vá embora sozinha, esperar que a ferida que a causou, cure. Não há soluções, respostas fáceis. Você só respira fundo e espera que ela vá diminuindo. Na maior parte do tempo, a dor pode ser administrada, mas às vezes ela te pega quando você menos espera, te acerta abaixo da cintura e não te deixa levantar. Você tem que lutar através da dor, porque a verdade é que você não consegue escapar dela e a vida sempre te causa mais.” – Grey’s Anatomy, 2×05

 

yanghope

Este poderia ser um post motivacional. Poderia ser um texto esperançoso. Poderia ser gotas de sabedoria. Conselhos. Ideias. Um manual de instrução. Este poderia ser um texto do tipo que muda vidas, faz a diferença. Poderia ser parte de algo maior. Poderia ser um trecho do grande romance americano. 

Mas eu só queria dizer que: a vida passa, às vezes correndo, de vez em quando, devagar, mas o Tempo sempre é escasso, mesmo sendo infinito. Então, não sobra muita coisa. Não dá para entender tudo. Não dá para fazer tudo. Não dá para dizer não para tudo.

Sinto-me suspensa, levada por uma bolha de sabão, vendo tudo de cima. Não dá para ser coerente agora.

*Portions for foxes – Rilo Kiley

 

 

Saber que é humano, ridículo, limitado*

Sou uma pessoa ansiosa. Diagnosticada até. Não me orgulho disso, mas aprendi a aceitar a ansiedade em minha vida, como parte de mim e que devo respeitar o limite que ela me impõe. Foi um longo caminho até esse ponto, onde me encontro agora. Tem dias de abismo, tem dias de planície, tem dias de cânions.

Dou-me tapinhas nas costas quando consigo ir um pouco além do limite imposto e aumentá-lo. Não é fácil. Olhando de fora, parece uma coisa incrivelmente tonta, mas para a pessoa ansiosa nada vem de graça. A luta é diária, muitas vezes é um passo para frente e dois para trás. De vez em quando, rola um salto gigantesco e, nossa, quando isso acontece, eu fico exultante. Puta merda, atravessei o limite, agora ele vai até . Podem ser apenas mais 30cm, porém para quem antes nem sequer saia de casa, uma régua parece o mundo inteiro.

Acontece que me ocorreu um desses saltos. Visitei uma cidade nova, conheci uma pessoa amada, enfrentei altura, andei na multidão e nem suei frio. Claro que estava medicada, pois não sou boba de dar chance para o que me faz mal. Evitei um passeio, pois a ansiedade, malandríssima, começou a buzinar no meu ouvido e meu estômago ficou gelado. Melhor evitar então. Dei meia-volta e falei: não, eu não vou subir até lá. Foi chato para minhas companhias? Foi sim, mas preciso me respeitar para continuar avançando. Tenho de respeitar minha oponente, sei bem a força da qual ela dispõe.

E foi isso. Eu, humana, ridícula e limitada, consegui ir um pouco mais além. E foi bom.

Na verdade, foi ótimo.

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Pira Olímpica montada na Candelária.

*Ouro de Tolo, Raul Seixas.

It’s just an illusion caused by the world spinning round

Essa é a música de 2016 para mim. Aliás, é a música dos últimos 3 anos e meio. Não tem um dia sequer que não a ouço, nem que seja na rádio mental.

Hoje foi um dia em que me dei conta de que as coisas são o que são e a vida acontece, independente da nossa vontade. Eu tinha uma programação e ela não me preocupava. Viajarei e farei uma cirurgia. Eventos que me causam ansiedade, mas necessários. Estava bem preocupada com a viagem – lugar novo, pessoas que não conheço -, mas tomei as medidas necessárias para amenizar a possibilidade de qualquer crise de pânico. Quanto à cirurgia, não me preocupava, pois não será a primeira e talvez nem a última, logo encaro como um meio para um fim que, dentro dos prognósticos, seria muito bom.

Mas a vida acontece, não é mesmo? Como dizem, ela muda as perguntas no exato instante em que você sacou as respostas das anteriores. E a vida, essa delinquente incorrigível, ela segue seu próprio rumo. Não adianta você ter tudo planejado, uma agenda cheia de datas e tarefas e, ó, vários esquemas. Porra, não adianta merda nenhuma, porque você nunca sabe quando e como será a curva do caminho, a variável que atrapalhará sua constante.

Enfim, é isso, amiguinhos. Prefiro pensar que é apenas mais um inconveniente. Respirar fundo, enquanto a vida corre.

Do you Realize – that everyone you know someday will die
And instead of saying all of your goodbyes – let them know
You realize that life goes fast
It’s hard to make the good things last
You realize the sun don’-go down
It’s just an illusion caused by the world spinning round

 

Like a goldfish in a bowl*

Tive um pesadelo horrível. Acordei gritando. “Deus, de novo não”. Não quero pensar que seja o prenúncio de agosto.

Ando afastada de tudo e todos, a Internet deixou de ser uma das minhas casas, pouco a visito e sempre vou até os vizinhos já conhecidos. Não quero compartilhar nem tristezas, nem alegrias.

Enquanto isso, voltei a escrever no papel, a estudar, a fazer uma to do list. Aprendi a usar o calendário do celular. Consegui juntar todos os papéis que precisava. Li alguns livros, vi duas temporadas de Criminal Minds, quatro de Whitechapel, Marcela e a última temporada de Salem. Ainda não vi Stranger Things, mas verei com o Respec, pois sempre tem alguma série a qual assistimos juntos e Restinhos**, que é nossa série do momento, só volta em outubro.

Recebi visitas, enfrentei meltdowns, estou em estado de ansiedade permanente, com altos e baixos. Não achei as chaves. Resolvi voltar para o básico. Ir mais devagar, ser mais gentil comigo mesma e ser mais grata a tudo que tenho.

Lembrei da minha cunhada e da bio dela no twitter: levo a vida devagar, para não faltar amor. Lamentei o fato de termos conversado tão pouco, enquanto ela ainda estava por aqui. Chorei um pouquinho todos os dias.

Devagar e com amor.

* Imitation of life – R.E.M.

** The Leftovers