Look at those cavemen go*

Enquanto eram só as sombras na caverna, o mundo tinha um limite. A existência estava ali, entre as paredes, nas paredes.

Agora que sabemos que não estamos mais na caverna, não entendemos muito bem o nosso lugar. É tudo tão grande e infinito. Antes, as sombras se limitavam ao fundo da caverna. Hoje elas nos cercam por todos os lados.

Estamos soltos, por nossa própria conta e as ideias todas colidem e as boas se perdem. Perdemos sempre os bons.

E ficamos. E cada vez mais precisamos de alguém que nos aponte o caminho. Cada vez mais somos Dorothies e precisamos de estradas de tijolos amarelos, mas tudo se resume a I’ve a feeling we’re not in Kansas anymore.

lifeisfear

*Life on Mars, David Bowie.

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But you’ve got to walk away now it’s over*

Desde a morte do meu padrasto (a quem eu tinha como pai), não fiz muita coisa da minha vida, além de ler e me preocupar com a situação da minha mãe. Trabalhei (à duras penas) e fiz uma viagem curta, mas não me senti fazendo nada muito produtivo e tudo que fiz foi contaminado pela preocupação e depressão. O fato de ter ficado sem as consultas com a psico também atrapalhou, porque consigo colocar uma ordem mínima na minha cabeça, depois de conversar duas horas com ela. Enfim, paralisei.

Hoje consegui falar com psico e foi uma conversa sem um ponto central, daquelas em que falo, falo, falo e o encadeamento fica por conta das lembranças que determinada palavra suscita. Não gosto de falar muito sobre a minha infância, porque foi bem problemática em termos de O Grande Horror e os pequenos horrores, mas não pude escapar disso ao comentar sobre a minha convivência com crianças e minha falta de tato e paciência em lidar com elas.

O que aprendi sobre mim nesse período?

  1. Preciso falar com alguém neutro sobre mim mesma. Não é egocentrismo. Eu penso demais e tenho pensamentos obsessivos compulsivos. Falar me ajuda a encadeá-los e entender melhor o que estou pensando e sobre o que estou pensando.
  2. Sinto saudades de algumas pessoas em minha vida.
  3. Sou prática quando preciso ser.
  4. Preciso suavizar meu modo de ser  com as pessoas que fazem parte do meu convívio direto.
  5. Preciso manter uma agenda e me ater a ela.

Para mim parece lógico que quanto mais me entendo, mais consigo conviver comigo mesma e com as minhas limitações que, durante muito tempo, foram fonte de frustrações para mim.

 

*The Streets, Dry your Eyes

For we have been through hell and high tide*

O Tempo passa e um dia ele resolve ficar. Acumula-se todo em seu rosto, pesando nos cantos, formando os mapas dos caminhos já trilhados e dos quais não se tem mais volta.

O Tempo cura e um dia ele resolve ferir. Caí sobre você, faz pedacinhos. Sua memória se fragmenta. Seu corpo perde toda a elasticidade, a força, a vontade e o que sobra é apenas a casca da ferida.

O Tempo é professor e um dia ele resolve punir. Dá a você horas a fio para pensar em todos os arrependimentos possíveis e imagináveis, que até aquele mesmo segundo sequer existiam.

O Tempo é infindável e um dia ele resolve terminar. O fim das horas de amor, da infância antes que ela termine, da vida, antes que ela se acabe.

O Tempo é generoso, mas o que dá, ele toma. Se vivemos tempo o bastante para ter lembranças, quase nunca temos memória. Se os dias se acabam em poucos anos, temos a memória, mas nem todas as lembranças do mundo serão o bastante para apaziguar a dor daqueles que o tempo deixou para trás.

— x— x—

Maio foi o mês em que a depressão se instalou de vez. Deu até saudades das épocas de mania.

Com ela, vieram o cansaço extremo, a falta de vontade, a insônia, o medo paranoico.

Na verdade, eu nem queria falar sobre isso. Era outra coisa que tinha em mente, mas deixa para lá. Estou com preguiça de elaborar textão e opinião sobre as coisas. Então prefiro apenas me omitir e ver o peixe morrer pela boca.

* What Difference Does It Make?, The Smiths.

 

 

 

By all of the petty things that I couldn’t do*

Idade adulta. 18 anos. Quando você só queria ter 15, decidir sobre a formatura e dizer para aquele cara que lhe desprezou o quanto ele era babaca. Contar para todo mundo que você ficou com a mina gostosa do colégio, não falou porque teve medo do que pensariam. (Ou a mina ficou com você, mas está tudo tão embaçado agora que você é adulta, quase velha, uma imagem em preto e branco na cabeça de uma criança). Quando você ainda tinha medo do que pensariam.

Adulta. Você agora tem medo do que pensa. Trai-se a cada instante. Ainda pensa em fugir, como quis quando passou pelo Grande Horror. Quase velha, você ainda se acha estranha demais, grande demais, inadequada demais. Antes era para o mundo e os outros. Na metade da vida, tem certeza de que é errada para si mesma.

Crescida, mas sem passar da altura que tinha aos 12 anos. A responsabilidade da vida adulta lhe atingiu como uma bola de canhão. E você agora vive com o buraco que ela lhe deixou. Grande, mas não inteira.

Jovem senhora. Nem se lembra mais do antes. Mentira, lembra sim, porque tudo ficou congelado. Os bailinhos, o primeiro porre, os cigarros. Nunca fumou maconha, nunca cheirou. Foi careta demais nesse sentido. Fugia e se escondia dentro da própria cabeça.

Velha. Sente-se velha. Lembra-se da primeira vez que se sentiu assim e desde então tem envelhecido muito todos os dias. A velhice não é leve. Não é estado de espírito. Não é aceitação. É fato. Do tipo que leva uma vida toda para acontecer.

*Electric Guests, This Head I Hold.