“I can’t go. We have to dance it out. That’s how we finish.”*

Não é segredo para quem me conhece o quanto eu gosto de Grey’s Anatomy, em particular pela personagem Cristina Yang, que é um dos meus amores ficcionais. A princípio, torci o nariz para a série e demorei demais para vê-la, só fui pegar a partir da 5ª temporada e passei uma semana fazendo maratona, porque não tinha mais volta, eu precisava ver mais da Yang, do Sloan e da Callie. Nunca liguei para Derek, Izzie, George e, sobretudo, detestava o Burke.

Mas. Que. Erro!

Primeiro, há de se entender que estamos falando de uma criação da Shonda Rhimes e isso precisa e muito ser levado em conta, porque a mulher é foda demais e desenvolve personagens como poucos. Veja, eu já a xinguei de Shondanás, porque ela é desse tipo aí, meio G.R.R. Martin (só que não é pregruiçosa) e mata personagens. Fulmina, com requintes de crueldade, suas personagens favoritas. E é vingativa. E criativa. E pende para o desastre. E PAGE CARDIO!

Mas tergiverso. O presente textão é para falar desses dois aqui:

yngyang
Yang & Yin

Estou revendo Grey’s porque é isso que faço. Revejo e tento entender a mente criativa da Shonda (olha a intimidade). Quero entender como ela constrói personagens, pois é um assunto que muito me interessa. Adoro literatura (ei, sou formada nisso), sobretudo a parte teórica, e amo, amo, amo psicologia e simbologia. E, PAGE CARDIO!, como eu nunca tinha percebido o lance Burke e Cristina?!

Ainda mais com um dos sobrenomes tão óbvios.

Yin e Yang são conceitos do Taoismo. Sendo que o primeiro é o conceito feminino, mais ligado à sombra, à absorção, à passividade e o segundo, ligado ao masculino, à ação, à luz. E o Burke foi o Yin de Cristina Yang. Ele que dosou a personagem, sendo peça fundamental em sua construção e em seu desenlace. É claro que só poderia ser ele a lhe definir a rota de saída, pois foi ele que lhe deu o caminho do crescimento. A incrível Cristina Yang só se tornou mais incrível, depois de aceitar sua escuridão, sua sombra (esconder o segredo de Burke) e só cresceu a partir do momento em que o Yin já tinha cumprido sua função, mostrando o contraste entre luz e sombra e apontando que a luz é plena e faz a escuridão desvanecer se decide brilhar.

Precisei rever as primeiras temporadas seis vezes para pensar nisso. E ligar com os conceitos de Animus e Anima de Jung. E o motivo de Cristina Yang ser a deusa que é, pois houve Preston Burke em sua vida. E ela nunca daria certo com o Owen (apesar da minha torcida).

Dr. Preston Burke: I believe there’s a mind-body-spirit connection. And if Justin really doesn’t want this heart, his body will reject it.
Dr. Cristina Yang: Okay, let me get this straight. You don’t just celebrate Christmas… you actually believe in Santa Claus?

Outra curiosidade: Cristina é a forma feminina de Cristo, ou seja, palavra de origem grega que significa “Ungido”. Preston, de origem anglo-saxã, significa sacerdote. Cristina Yang foi a ungida do sacerdote da Cardio. Tornando-se depois, a deusa da Cardio.

Simbólico ou não eles terem rompido em um altar, depois do sacerdote perceber que era inferior à aprendiz?

Como eu disse, Shonda Rhimes é muito foda.

*Fala de Cristina Yang.

** Fui atrás da etimologia do nome Burke: forma inglesa arcaica de burgo (em relação à personagem, podemos dizer que a Cardio era o domínio do sacerdote); como verbo, significa matar por asfixia, derivado do nome próprio William Burk, assassino que matava suas vítimas por asfixia para depois dissecar seus corpos. E, relativo à personagem, podemos dizer que, ao romper com Yang ele se sentia asfixiado por ela. E depois, ao voltar, pela vida em si. Shonda pensou em tudo isso? Duvido que não.

 

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Autor: veronyx

"I am not a smile." - SP

8 comentários em ““I can’t go. We have to dance it out. That’s how we finish.”*”

  1. estou revendo pela não sei qual vez. nesse momento em que vim ler o texto acabei de pausar o episódio da terceira temporada, aquele do acidente da balsa. logo depois do pedido de casamento.

    seu texto está maravilhoso. você e shonda, mentes brilhantes. as sacadas de Yin e Yang, sacerdote e deusa, sensacionais.

    Um dos motivos de eu rever tanto é que a série me dá chaves. É uma série muito humana, no sentido do filósofo sabido, nada do que é humano me é estranho. E uma coisa do humano é que somos vulneráveis. De forma evidente ou disfarçada, simples, polarizada ou complexa. Uma coisa que eu sempre amei em Cristina é que ela não fica nas dicotomias. Na dinâmica relacionamento/trabalho, ela tem uma prioridade, mas não uma limitação. Ela é definida pelos seus relacionamentos, sim. Mas não apenas. Eu nunca, nunca vou esquecer a cena na cozinha, quando ela explica pro Owen o relacionamento que teve com Burke e o que ela estava disposta a viver e ser e o que ela não faria mais.

    eu sinto que Cristina nunca saiu da série e isso é uma genialidade do roteiro. ainda tanto fala dela. não só o relacionamento dela com Meredith e Owen, mas a forma como ela aprendia, como os outros foram forçados a ensinar, o padrão de excelência que ninguém nunca consegue alcançar. Arquétipo?

    beijos, amei seu texto, amo papear com você

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    1. Lu, essa série tem camadas demais. Uma tontice subestimá-la. Eu revejo e aprendo coisas sempre e fuço para aprender ainda mais, porque essa Shonda, como ela sabe das coisas, como ela entende do humano, da substância e da forma e insere essas pequenas sacadas, né? Nada por acaso, porque sim. Tudo construído nos detalhes. Quem me dera ter tempo para analisar as catástrofes, porque cada uma tem sua ligação com a parte e o todo e nossassinhora, que delícia perceber esses espaços negativos também na série.

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  2. aliás, eu estava justamente escrevendo sobre o episódio de final dessa temporada, em como a Shonda parece ler as conversas que temos. Certeza que se ela não pensou nisso tudo que você apontou ela agora está na dúvida se taca a cabeça na parede ou abre um champanhe

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  3. Nossa, adorei esse post. Então. A Cristina como yang é inevitável nao pensar. e ela realmente tem tanta clareza do q quer e de quem é etc. O Burke como yin nunca tinha pensado. e adorei pensar nisso. acho q ele é mesmo essencial para o desenvolvimento dela. e foi mesmo pivô das maiores escolhas q ela fez. nao casar/mudar pra europa. adorei.

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