Hurry, hurry, hurry before I go insane

Tive um amigo que passou por terapia de eletrochoque. E foi isso que nos aproximou. Na verdade, nós nos conhecemos três anos antes, quando trabalhávamos no mesmo local, mas um era nada para o outro e vice-versa. Coexistíamos no mesmo espaço de trabalho por poucas horas e só.

Daí que nos reencontramos. E ele estava mudado. Tinha terminado mais uma graduação (ele fez três), tinha se separado da mulher, tinha passado pela terapia de eletrochoque e andava com um papelzinho na carteira com o nome de todos os remédios que ele já tomara para seu transtorno. A terapia de eletrochoque foi o último recurso.

Coincidentemente, a vida nos reaproximou em um período em que a minha existência estava uma porcaria. Eu não tinha com quem conversar sobre meus assuntos, nem com quem falar sobre a volta dos sintomas da minha depressão. Falar sobre a apatia que eu sentia em relação a tudo e a todos. Entre um intervalo e outro, em outro espaço de trabalho no qual passamos a coexistir, brinquei que gostaria de apagar minha memória. Ele me repreendeu de forma veemente. E disse que eu não sabia do que estava falando.

Os choques tinham liquefeito as memórias dele. A teoria era que não lembrar o faria sofrer menos. Bem, não fez.

Tem algum jeito de lembrar de coisas doloridas sem que sintamos de novo a dor, como se fosse a primeira vez? Tem como contornar o que passou e dizer: pelo menos fiquei mais forte, mais sábio, mais experiente? Dá mesmo para acreditar que o fato de ter sentido a dor lhe fez uma pessoa melhor?

Conversávamos sobre isso. Um dia, o mais perto que chegamos de alguma conclusão foi: os fatos da vida que cada um de nós levou até aquele determinado momento nos fez diferentes. Não melhores.

Não dá para viver no país das conjecturas. Como não dá para viver sem se lembrar do passado, como dizia meu amigo. Ele não se lembrava e isso era sua angústia. A depressão em si deixou de ser seu principal problema. Era o não lembrar que o esvaziava diariamente.

E assim, ele parou de sentir.

crap_yang

 

 

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Autor: veronyx

"I am not a smile." - SP

2 comentários em “Hurry, hurry, hurry before I go insane”

  1. eu não consigo nem ver aquele filme do brilho eterno, de tanta angústia que sinto. eu não tenho boa memória, mas sei que cada coisa que lembro (e as que não lembro mas vivi) me fizeram. nem melhor nem pior, como vocês conversaram, mas essa eu. e já perdi coisas demais pra me perder também.

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