Vasto Mundo – Resenha

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73 anos e muita história para contar.

Maria Valéria Rezende é freira. E escritora. E militante.

Durante a ditadura militar, foi perseguida, tendo de se exilar e o viver lhe trouxe, além de sabedoria, muita matéria bruta que ela lapidou de forma magistral em seus livros ficcionais.

Vasto Mundo, livro de contos ( 2001, 2015, Alfaguara, Objetiva – 168 páginas) é, na minha opinião, um romance com narrativas menores interligadas, cujas histórias se desfolham com delicadeza e determinação. Um misto de Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa, com uma escrita fluída, natural, que se esmera por manter a cadência de fala nordestina e que deixa o leitor confortável, como se estivesse ouvindo um causo à beira do fogão, chupando bagaço de cana (embora não tenha crescido no Nordeste, passei minha primeira infância rodeada por plantações de cana e uma das coisas das quais me lembro era de ficar ouvindo causos de assombração e chupando bagaço, perto do fogão). É tão bem escrito que você se convence de que cada uma das personagens é uma pessoa real e fica morrendo de vontade de saber como a vida delas prosseguiram. E como elas aparecem nas histórias que não são suas, o leitor vai pinçando, aqui e ali, os acontecimentos das vidas de todas elas e a impressão que fica, depois de acabada a leitura, é que são todas alguém de quem você ouviu falar, que mora lá longe e que leva a vida do jeito que é possível vivê-la.

É um livro curto, daqueles que lemos de uma vez só e que, ao terminá-lo, lamentamos muito o fato de não ser maior. Talvez por isso, já embalei na leitura de Quarenta Dias, da mesma autora, e já a terminei, mas esse fica para outro texto.

Recomendo demais. Um dos melhores livros nacionais que li nos últimos anos.

“Meus ouvidos de terra, pedra e cal ouvem, e aprendo. Creio ter compreendido que nisto consiste o serem humanos, em poderem ser narrados, cada um deles, como uma história.”

***** de 5.

O Livro dos Mortos do Rock – resenha

“I’m not afraid of death because I don’t believe in it.
It’s just getting out of one car, and into another.” – John Lennon

E ele realmente saiu de um carro – a limusine que o trouxe de volta do estúdio, onde ele dava os toques finais em Double Fantasy – e entrou em outro, o carro de polícia que o levou para o Roosevelt Hospital, naquela noite de 8 de dezembro de 1980.

O Livro dos Mortos do Rock foi um dos livros que li no mês de maio. Foi uma leitura rápida e sem compromisso, pois o livro não oferece grande densidade e é excessivamente informativo em alguns aspectos e totalmente apressado em outros. A leitura foi interessante para conhecer mais sobre a vida íntima de Elvis, Jimi Hendrix e Jerry Garcia, do Grateful Dead, de quem eu não sabia absolutamente nada.

Quando eu era criança, vi um filme sobre a vida de Priscilla e Elvis e fiquei um pouco obcecada pelo assunto, mas nunca tinha me ocorrido o quanto ela é parecida com a própria mãe de Elvis, Gladys, que era tão superprotetora em relação ao filho, que acabou morrendo quando ele foi convocado para o exército e ela não pôde tê-lo mais sob sua asa. O livro trata bastante da relação dos astros mortos com suas mães e como o relacionamento ou, para a maioria deles, a falta de um, acabou tendo impactos significativos em suas vidas pessoais e, consequentemente, em suas carreiras.

Embora as análises do autor sejam rasas, o tópico é interessante e merecia ser melhor detalhado. Embora tenha 408 páginas, o livro se apressa em muitas passagens, ficando demasiadamente repetitivo em outras. Dando destaque para a consciência instintiva que cada um dos 7 astros tinham da própria morte e de que não viveriam muito (à exceção de Garcia, que chegou a completar 50 anos, mas por pura sorte). Quase pulei toda a parte sobre Jim Morrison por motivos de que acho The Doors um porre e o rei lagarto, um saco. De todos ali, foi o que teve a vida menos ferrada e o que sofria de maior megalomania (mais até do que Elvis, o Rei, de fato) e um coitadismo ímpar, mas aí sou eu analisando e partindo da minha má vontade para com ele.

O livro consegue ser triste e me fez repensar várias coisas e entender outras tantas. Fiquei bem triste nos capítulos sobre Janis e Cobain e perdi um pouco mais o apresso que tinha por Lennon e Yoko.

Quem se interessa pelo assunto, vale a leitura.

*** de 5.

 

“I can’t go. We have to dance it out. That’s how we finish.”*

Não é segredo para quem me conhece o quanto eu gosto de Grey’s Anatomy, em particular pela personagem Cristina Yang, que é um dos meus amores ficcionais. A princípio, torci o nariz para a série e demorei demais para vê-la, só fui pegar a partir da 5ª temporada e passei uma semana fazendo maratona, porque não tinha mais volta, eu precisava ver mais da Yang, do Sloan e da Callie. Nunca liguei para Derek, Izzie, George e, sobretudo, detestava o Burke.

Mas. Que. Erro!

Primeiro, há de se entender que estamos falando de uma criação da Shonda Rhimes e isso precisa e muito ser levado em conta, porque a mulher é foda demais e desenvolve personagens como poucos. Veja, eu já a xinguei de Shondanás, porque ela é desse tipo aí, meio G.R.R. Martin (só que não é pregruiçosa) e mata personagens. Fulmina, com requintes de crueldade, suas personagens favoritas. E é vingativa. E criativa. E pende para o desastre. E PAGE CARDIO!

Mas tergiverso. O presente textão é para falar desses dois aqui:

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Yang & Yin

Estou revendo Grey’s porque é isso que faço. Revejo e tento entender a mente criativa da Shonda (olha a intimidade). Quero entender como ela constrói personagens, pois é um assunto que muito me interessa. Adoro literatura (ei, sou formada nisso), sobretudo a parte teórica, e amo, amo, amo psicologia e simbologia. E, PAGE CARDIO!, como eu nunca tinha percebido o lance Burke e Cristina?!

Ainda mais com um dos sobrenomes tão óbvios.

Yin e Yang são conceitos do Taoismo. Sendo que o primeiro é o conceito feminino, mais ligado à sombra, à absorção, à passividade e o segundo, ligado ao masculino, à ação, à luz. E o Burke foi o Yin de Cristina Yang. Ele que dosou a personagem, sendo peça fundamental em sua construção e em seu desenlace. É claro que só poderia ser ele a lhe definir a rota de saída, pois foi ele que lhe deu o caminho do crescimento. A incrível Cristina Yang só se tornou mais incrível, depois de aceitar sua escuridão, sua sombra (esconder o segredo de Burke) e só cresceu a partir do momento em que o Yin já tinha cumprido sua função, mostrando o contraste entre luz e sombra e apontando que a luz é plena e faz a escuridão desvanecer se decide brilhar.

Precisei rever as primeiras temporadas seis vezes para pensar nisso. E ligar com os conceitos de Animus e Anima de Jung. E o motivo de Cristina Yang ser a deusa que é, pois houve Preston Burke em sua vida. E ela nunca daria certo com o Owen (apesar da minha torcida).

Dr. Preston Burke: I believe there’s a mind-body-spirit connection. And if Justin really doesn’t want this heart, his body will reject it.
Dr. Cristina Yang: Okay, let me get this straight. You don’t just celebrate Christmas… you actually believe in Santa Claus?

Outra curiosidade: Cristina é a forma feminina de Cristo, ou seja, palavra de origem grega que significa “Ungido”. Preston, de origem anglo-saxã, significa sacerdote. Cristina Yang foi a ungida do sacerdote da Cardio. Tornando-se depois, a deusa da Cardio.

Simbólico ou não eles terem rompido em um altar, depois do sacerdote perceber que era inferior à aprendiz?

Como eu disse, Shonda Rhimes é muito foda.

*Fala de Cristina Yang.

** Fui atrás da etimologia do nome Burke: forma inglesa arcaica de burgo (em relação à personagem, podemos dizer que a Cardio era o domínio do sacerdote); como verbo, significa matar por asfixia, derivado do nome próprio William Burk, assassino que matava suas vítimas por asfixia para depois dissecar seus corpos. E, relativo à personagem, podemos dizer que, ao romper com Yang ele se sentia asfixiado por ela. E depois, ao voltar, pela vida em si. Shonda pensou em tudo isso? Duvido que não.

 

Le choix t’appartient, ne sois pas en retard

Viens comme tu es, comme tu étais,
Comme je veux que tu sois
Comme un ami, comme un ami, comme un vieil ennemi.
Prends ton temps, dépêche toi
Le choix t’appartient, ne sois pas en retard.
Repose-toi, comme un ami, comme un vieux souvenir,
souvenir, souvenir, souvenir
(Come as you are, tradução para o francês)

Você cantou isso no meu ouvido, no meio da aula de Francês III, com aquela chata da S, que se achava muito francesa, mas nunca tinha ido além de Tatuí.

Da aula, fomos para o apartamento da sacada. Fazia um frio do cão. Estávamos com nossas calças rasgadas. Seu all star tinha um furo na sola. O banco tinha lhe passado a perna nas tarifas. Nunca estivemos tão pobres.

ne sois pas en retard.

Dançávamos para nos aquecermos. A chave não rodou. Não tinha nada para comer. O vento cortava. A rua estava vazia. Os zumbis já perambulavam por ali. Gastamos os grafites na chave. Entramos. Que frio do caralho que fazia.

Guardava todas as suas coisas que ficaram em uma caixinha que você me deu. Os poemas queimados. O vale-dancinha. O idioma não coube.

Hoje parece outra vida, em que fomos as únicas personagens.

comme un vieux souvenir, souvenir, souvenir, souvenir.

When they ask me what I’ve seen I’ll say saturn and soliloquies*

“I’ve been blogging since February of 2001. When I started blogging, it was a dinosaur blog. It was me and a handful of tyrannosaurs. We’d be writing blog entries like, ‘The tyrannosaurus is getting grumpy.'” Neil Gaiman

Tendo a gostar de um punhado de palavras, mas detesto a palavra aglutinar (junto com vários anglicismos forçados e jargões corporativos). Essa palavra, em especial, lembra-me viscosidade e não suporto essa textura. Então, eu a troco por juntar, por formar, por englobar e, embora não haja sinonímia perfeita (uma das verdades que o curso de Letras me ensinou e me chocou – ah, que doce a época em que eu ainda me chocava com esse tipo de informação), faço de tudo para não usar palavras das quais não gosto.

Contudo, e há sempre um porém, nenhuma outra me ocorre para falar de um movimento que aconteceu lá no terciário da Internet, que foi os blogs. Costumo dizer que, quando cheguei online, tudo era mato e havia um conjunto de meia dúzia de pessoas que ficavam postando sobre a vida, o universo (particular) e não tudo o mais e que acabaram se conhecendo e estão aí até hoje. Durante um bom hiato, migramos todos para as redes sociais, mas sempre com aquela nostalgia dos blogs diarinhos impregnada nas nossas postagens e interações virtuais. Não éramos opinativos (não sempre) e, ouso dizer, fomos os primeiros mimizentos da rede, porque os blogs eram nosso muro das lamentações e foi através deles que montamos o nosso grupo de quase anônimos que batia ponto nas caixas de comentários para discutir, analisar, apoiar, dar pitaco, concordar, passar pela catarse, conhecer coisas e pessoas novas, paquerar, jogar verde para colher maduro e aprender.

E os blogs diarinhos foram morrendo, sendo substituídos pelos plubiposts, pelos looks do dia, pelos textões no FB, pelas imagens felizes do IG, pelos resmungos rápidos do Twitter; mas os jurássicos, os desbravadores, os diarinhos wannabe continuaram a nutrir aquela nostalgia e resolvemos nos juntar mais uma vez e afirmar que não, não, senhora Web 2.0, os blogs diarinho não morreram. Seus autores ainda existem e continuam escrevendo e mimizando e trocando informações, fofocas, comentários ácidos, apoio, paquerando, mandando música em forma de declaração de amor e se conhecendo em encontrões ao vivo, bem como fazíamos lá no começo dos anos 2000, quando o bug do milênio não aconteceu e tantos fins do mundo anunciados não tiveram a decência de se concretizarem.

E assim nasceu a:

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Os blogs juntinhos

Eu comecei com este lance de blogs lá em 2001, com o finado Sambambaia Psicótica. Passei anos explicando o porquê do título e que a sambambaia admite as duas variantes (samambaia também vale, mas adivinhem? Não gosto dessa palavra.). Queimei vários neurônios tentando entender o código do Weblogger; achava o Blogger chato e fui uma das últimas a abandonar a plataforma que depois foi comprada pelo Terra. Através do Sambambaia, conheci muitas pessoas legais e que fazem parte da minha vida até hoje. Fiz uma melhor amiga-irmã-camarada. Namorei blogueiros/as. Paquerei em caixa de comentário, troquei receita, marquei baladas (sempre na Trash 80, Loca, barzinho na Augusta), em uma época em que o nosso ponto de encontro era sempre na catraca de algum metrô da Paulista. O ponto alto foi quando uma professora de gênero da Unicamp citou meu blog durante uma aula. Eu estava presente, mas como assinava com o pseudônimo que até hoje uso, ninguém sabia quem escrevia aquele mimimi sem fim.

O blog me salvou durante os períodos mais densos das primeiras crises depressivas que eu tive. Quando ainda se usava a nomenclatura psicose maníaco-depressiva para designar Transtorno Bipolar, e esse foi meu primeiro diagnóstico. E foi bom saber que não estava sozinha, nem no mundo virtual, nem no real.

*Kimmia Dawson, Time to Think

Hurry, hurry, hurry before I go insane

Tive um amigo que passou por terapia de eletrochoque. E foi isso que nos aproximou. Na verdade, nós nos conhecemos três anos antes, quando trabalhávamos no mesmo local, mas um era nada para o outro e vice-versa. Coexistíamos no mesmo espaço de trabalho por poucas horas e só.

Daí que nos reencontramos. E ele estava mudado. Tinha terminado mais uma graduação (ele fez três), tinha se separado da mulher, tinha passado pela terapia de eletrochoque e andava com um papelzinho na carteira com o nome de todos os remédios que ele já tomara para seu transtorno. A terapia de eletrochoque foi o último recurso.

Coincidentemente, a vida nos reaproximou em um período em que a minha existência estava uma porcaria. Eu não tinha com quem conversar sobre meus assuntos, nem com quem falar sobre a volta dos sintomas da minha depressão. Falar sobre a apatia que eu sentia em relação a tudo e a todos. Entre um intervalo e outro, em outro espaço de trabalho no qual passamos a coexistir, brinquei que gostaria de apagar minha memória. Ele me repreendeu de forma veemente. E disse que eu não sabia do que estava falando.

Os choques tinham liquefeito as memórias dele. A teoria era que não lembrar o faria sofrer menos. Bem, não fez.

Tem algum jeito de lembrar de coisas doloridas sem que sintamos de novo a dor, como se fosse a primeira vez? Tem como contornar o que passou e dizer: pelo menos fiquei mais forte, mais sábio, mais experiente? Dá mesmo para acreditar que o fato de ter sentido a dor lhe fez uma pessoa melhor?

Conversávamos sobre isso. Um dia, o mais perto que chegamos de alguma conclusão foi: os fatos da vida que cada um de nós levou até aquele determinado momento nos fez diferentes. Não melhores.

Não dá para viver no país das conjecturas. Como não dá para viver sem se lembrar do passado, como dizia meu amigo. Ele não se lembrava e isso era sua angústia. A depressão em si deixou de ser seu principal problema. Era o não lembrar que o esvaziava diariamente.

E assim, ele parou de sentir.

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