“time is a flow of words coherent only in appearance, the one who piles up the most is the one who wins.”

“There was something unbearable in the things, in the people, in the buildings, in the streets that, only if you reinvented it all, as in a game, became acceptable. The essential, however, was to know how to play, and she and I, only she and I, knew how to do it.”  

Elena Ferrante, My Brilliant Friend

A saga napolitana foi a melhor coisa que li entre o fim de 2015 e começo de 2016. Talvez todos os seus livros estejam entre os melhores e mais impactantes que li na minha vida, e não foram poucos os livros que li.

São quatro volumes que descrevem um processo bem interessante de despersonalização, mimetização e personalização que envolve, ao meu ver, as três personagens mais importantes da história. (Destaco que a cidade, o bairro, o stradonne, as relações entre as máfias menores que dirigiam o bairro, formam, mais do que o pano de fundo do enredo, uma outra personagem, densa, redonda, que pontua, modifica, faz avançar e regredir a história, intrometendo-se, mas nunca se sobressaindo, deixando claro que as pessoas são organismos vivos que vivem ou não sua condição através do meio.)

Os títulos dos volumes contam uma história por si só. Primeiro, há a Amiga Genial, descrita por uma menina que tem como único atributo digno de nota a sua inteligência, que não é fruto de nenhuma genialidade, e sim de um trabalho árduo, repetitivo e chato. Elena, ao se dar conta que a amiga, que só vai se definir como tal depois de muitas vivências compartilhadas, é muito mais inteligente que ela, sente-se completamente perdida de si mesma. Passa a contar suas bênçãos que poderiam fazer frente à genialidade que a amiga parece desprezar, ao mesmo tempo, que almeja se fundir a ela e roubar para si tudo que lhe falta.

A história do novo sobrenome, ao meu ver, é o volume fundamental de toda a saga, pois nos dá a dimensão de Lila, que começa a passar pelo processo que ela chama de desmarginalização, sente que está perdendo os contornos de si mesma. Elena não compreende como, vivendo em uma situação de luxo, acima e aparente imune ao bairro, à cidade, às picuinhas familiares, a amiga se vê diluindo-se no mundo que ela não reconhece.

Aqueles que foram e os que ficaram (tradução minha) marca a separação da relação simbiótica das duas, onde se acentua o processo de despersonalização de uma e personalização de outra. Elena se encontra. Lila se perde no emaranhado de tudo que ficou para trás. Os poucos momentos em que ela passa a ser uma pessoa novamente se dá por meio da interação com outras pessoas, com frequência, aquelas que ela não pode ter.

O último livro, A história da criança perdida – também tradução minha -; fecha a saga com uma ambiguidade fenomenal. Há uma criança. E há a criança. E as duas se perdem.

Disse acima que eram, ao meu ver, três personagens interessantes. A terceira é Afonso que se ocupa do processo dolorido de mimetização. Não conseguiria falar sobre ele sem dar spoilers, mas de todas as personagens foi a que mais me atraiu do ponto de vista psicológico.

No jogo que essas três personagens jogaram houve mortos, feridos, perdidos e abandonados. Ninguém venceu.

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Autor: veronyx

"I am not a smile." - SP

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