“Are we in another planet? “

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Raramente falo que uma adaptação cinematográfica é tão boa quanto o livro que lhe deu origem, mas abro uma exceção para falar de O Quarto de Jack (Room, 2015, direção de Lenny Abrahanson).

O livro foi um dos melhores que li em 2014, pesado,  muito bem escrito e conta a história de um menino que vive com sua mãe em um quarto. Ela, refém de um sequestrador e estuprador; ele, fruto desses dois crimes. A narrativa segue o olhar do menino e sua compreensão do mundo reduzido em que vive, mas que por ser o único que ele conhece, acaba sendo seu “planeta” e o que ele vê do lado de fora é o espaço sideral – uma boa metáfora para o desconhecido.

O filme deu conta de transportar esse olhar para a tela com uma delicadeza ímpar, utilizando-se de imagens, cores, diálogos sucintos e muito certeiros, fotografia e cenografia muito bem pensadas e integradas. Apesar de ser um soco no estômago pela temática que aborda, o filme consegue desenvolvê-la de modo a dosar a realidade cruel com o olhar do menino e sua inserção no mundo para além das paredes do quarto.

Três  cenas são dignas de nota: quando a mãe explica para o menino que há um mundo fora do quarto. Ele reluta a aceitar a ideia, batendo na tecla de que o mundo “verdadeiro” é a mágica que acontece na TV, que é uma de suas duas únicas janelas para o mundo exterior (a outra é a claraboia).

A parte em que a mãe passa por uma desistência também me emocionou, seja pela sonoridade (reparem, há o barulho da porta do quarto, o menino dormindo, ele acorda, sai à procura da mãe – lembra a outra cena em que ele sai do guarda-roupas, na primeira metade da narrativa); seja pela atuação de Jacob Tremblay.

E os dois diálogos finais entre mãe e filho. Tudo se resume à escolha de dois artigos.

Não é um filme fácil. Algumas pessoas podem achá-lo lento, mas há de se levar em conta que ele é narrado pela ótica de uma criança de cinco anos, que está apreendendo o mundo e a realidade que o rodeia. Lida com a dor e o processo de luto (que aqui é decorrente da morte de uma vida em potencial, que deixou de ser vivida quando a jovem foi sequestrada), com a reinserção e o deslocamento. É um filme em que reina figuras de linguagem, metáforas visuais, a ação é muito mais psicológica do que física. Ao meu ver, é um filme que se constrói de dentro para fora e demanda certa elaboração.

(Como eu disse no FB, por mim podem cancelar o Oscar do Leo e darem para o menininho, que arrasa.)

 

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